Síntese

O grande fomento interno a partir de D. Sancho I permite à região de riba Tejo recuperar a sua antiga vocação agrícola. Uma das terras cujo nome evoca o passado romano é Vila de Rei que reaparece na documentação do séc.XIV sob a designação de quintã, sendo de 1368 o mais antigo documento conhecido que dá conta desta realidade, embora se deva crer que muito antes desta data já andava emprazada, debaixo do estatuto de reguengo. Esse facto é tanto mais evidente se tivermos em conta que também antes daquele ano, outros casais que acompanham a evolução de Vila de Rei até ao séc. XV, já estavam arrendados ou dados de mercê, como era o caso de Montargil e de Ulme.

O desenvolvimento do sítio de Vila de Rei trouxe, por arrastamento, o das áreas limítrofes, como seja o seu paul e o vale que lhe é contíguo, designado na documentação de 1379, como val de cavalos o que deixa pressupor a criação da espécie equina por ali. Esta menção ocorre por causa das partilhas naquela data entre as duas filhas do enfiteuta, chamado Pero Esteves do Cazal, escudeiro d’ el-rei. É a Constança, uma das suas filhas, a quem cabe por herança Vila de Rei com o val de cavalos, além de outros bens nos arredores do Cartaxo e em Santarém. Constança entra no convento de St.ª Clara desta vila e a partir daqui os casais e propriedades são superintendidos pelo dito convento, ainda que sob procuração dela, através dum seu tio chamado Gonçalo Esteves do Cazal, também escudeiro e falcoeiro d’ el-rei. Por esta altura, embora o casal de val de cavalos reapareça mencionado num códice de 1382, Vila de Rei ainda se lhe sobrepõe, condição que irá prevalecer ao longo de várias décadas, assumindo-se esta como cabeça dos emprazamentos que Constança fará nas condições referidas, em seu nome e do convento, enquanto for viva e a partir de 1399 já só do convento e do tio, na qualidade de procurador do mesmo, sem se especificar o nome dela, mas apenas, colectivamente, as freiras e a abadessa do mosteiro.

A partir daquele ano Vila de Rei com val de cavalos são emprazados a um Fernão Gonçalves Çafom, vassalo d’el-rei e, daí para o futuro ficarão nas mãos dos seus sucessores, filho e neto, homónimos, chamados ambos Álvaro Fernandes de Carvalho, sendo que um é “o Velho”. Talvez por impedimento do filho primogénito, aparece à frente do casal D. Catarina Fernandes de Barros, viúva daquele, mas é ainda assim na família que será conservado aquele património até 1462. Pela posição ocupada na Corte pelos membros desta geração, é-lhe confirmada a mercê de coutada na quintã e paul de Vila de Rei, a rogo do infante D. Henrique. Após aquele ano é já nas mãos do chanceler-mor, conde palatino, presidente da Casa da Suplicação e do conselho do rei o Doutor Rui Gomes de Alvarenga que se acha a terra de Vila de Rei e Val de Cavalos, por compra dos direitos à viúva e mãe dos Carvalho.

A acumulação de bens do conde palatino, homem de nomeada no seu tempo, progenitor de vários filhos – todos eles pessoas influentes – proporciona uma ampla divisão dos mesmos, sendo que a um deles, Fernão de Melo, veio a caber aquele património. Pelo ano de 1515, achando-se este Fernão de Melo sem filhos do seu casamento, obteve de D. Manuel a permissão para legitimar um rapaz também chamado Fernão de Melo, como ele, que tivera fora do matrimónio. À legitimação seguiu-se num curto espaço de dias a autorização régia para poder vincular os bens que tinha em morgado, constituindo nele, seu sucessor para todo o sempre, o dito seu filho e descendência, por linha varonil.

Todavia, por razões obscuras, não ficou o morgado de Vila de Rei nas mãos de Fernão de Melo, o jovem, mas sim de uma sobrinha de seu pai, filha de Gomes Soares, o primogénito do Doutor Rui Gomes de Alvarenga, chamada D. Margarida Soares, coisa que o testamento do senhor de Vila de Rei já previa, indicando-a como possível sucessora. D. Margarida veio a contrair matrimónio com um fidalgo castelhano, D. João Alarcón, que tinha vindo para Portugal na comitiva de D. Maria de Castela, quando esta casou com o nosso rei D. Manuel I, por ser filho de uma aia desta rainha.

Vila de Rei passaria a constar dos títulos dos varões primogénitos deste casal que se começaram a assinar como “senhores de Vila de Rei”, além de outros bens que lhes estavam vinculados, como seja o de senhores e alcaides-mores de Torres Vedras. Assim prosseguirão pelo tempo fora as terras do morgado de Vila de Rei, que andavam emprazadas a rendeiros, como se pode averiguar pelas notícias que chegaram até nós.

Sobrevivendo sempre às vicissitudes políticas, nomeadamente à perda da independência em 1580 e à restauração em 1640, vamos acompanhando o percurso dos senhores de Vila de Rei até ao momento em que o 8.º destes senhores se passou de livre vontade para Espanha, depois de ter sido nomeado por D. João IV governador de Ceuta. Foi esta circunstância danosa para o nome da família, tendo-lhe sido decretado o arresto dos bens, em que entrava os de Vila de Rei e Val de Cavalos. Este património foi reivindicado pelo 1.º conde de Avintes, D. Luís de Almeida, logo em 1658, sendo-lhe reconhecido por direito em 1677, já no tempo do seu sucessor, D. António, em virtude da relação familiar entre aquele e os Soares Alarcão, por linha feminina.

À volta desta data ou um pouco mais tarde, o conde de Avintes deu de subrogação parte dos bens do morgado, onde entravam Vila de Rei, o seu paul e Val de Cavalos, pela quantia de 24$000 cruzados, quantia que vinculou em vez das terras ao dito seu senhorio, por lhe parecer mais vantajoso, conforme explicou na solicitação que recisou de fazer para obter a necessária autorização régia. Era o subrogador um homem de muitos cabedais de Lisboa que singrava também na carreira administrativa ao serviço da Corte, Manuel Lopes de Lavre, que entre outros cargos de relevo foi tesoureiro da Casa das Rainhas no tempo de D. Pedro II. Mas foi um seu filho e sucessor, na carreira e nos muitos bens, André Lopes de Lavre, que celebrou a escritura do contrato de subrogação em 1719.

A partir de então Vila de Rei e Val de Cavalos e todos os seus casais passaram a integrar a casa de Lavre. As vicissitudes políticas deixam antever as grandezas e misérias da dita casa que, de um grande apogeu, viu chegar o seu apagamento na época do neto de André Lopes de Lavre. A casa de Lavre andava ligada por laços de casamento à descendência da família da “Flor da Murta”, Menezes Portugal, pela linha feminina, desde a 1.ª metade do séc. XVIII, razão por que achamos os bens do morgado nas mãos do herdeiro comum da família Lavre-Menezes nos últimos anos daquele século.

A casa será relançada por D. Jorge de Menezes – nome do herdeiro – que consegue recuperar parte do seu carisma. Mas os tempos e as dificuldades não permitiam muito. As invasões francesas podem instituir-se como fronteira de uma idade a partir da qual as coisas nunca mais voltarão a ser iguais. A venda dos bens nacionais, a desvinculação dos morgadios e outras alterações profundas verificadas no séc. XIX, vieram provocar a alienação daqueles bens, como seria de esperar, face ao novo enquadramento político-económico, apesar de aquele património ter permanecido unido numa das fases mais cruciais da história de Portugal, como foi seguramente a primeira metade de oitocentos. A extinção definitiva dos morgadios em 1863, acarretou a desanexação e venda parcelar dos casais da antiga legítima dos senhores de Vila de Rei, sendo que, daquela década em diante, uma nova ordem já estava presente e a emergência de outros modelos socioeconómicos era uma realidade.

Mas antes de terminar, não podemos deixar de realçar um ou dois factos que evidenciam a importância destes povoados. Primeiro, porque a sua localização, as características do seu solo e as condições naturais que lhe são intrínsecas não permitiram nunca que ficassem ignorados; segundo, o étimo latino do nome de Vila de Rei permitem afirmar que o sítio é conhecido desde tempos longínquos e o local privilegiado já durante o império romano, para mais, situando-se nas cercanias de uma tão rica planície como é a lezíria do Tejo e do traçado de uma via romana, dados que cabe à arqueologia confirmar; terceiro pela riqueza da sua natureza que permitiu, desde outrora, diversificar as culturas e proporcionar a criação de gados de que o vale é um forte indício entre a lezíria e a charneca; por último e não derradeiro, lembrar que o crescimento económico desta região em épocas assinaladas pela história pátria é visível, ao mesmo tempo que facultou a aproximação entre estas duas entidades charneca/campo. Vale de Cavalos, sobrepondo-se a Vila de Rei, conseguiu esta simbiose sem voltar completamente as costas ao passado que a aproximava mais das terras circunscritas pelas Ribeiras de Ulme, Chouto e Muge do que ao Tejo. É por esse passado dos alvores da monarquia aos períodos de grande crescimento, que percorreram a primeira dinastia, que Vila de Rei com Val de Cavalos acompanharam em importância o engrandecimento dos casais de Ulme e Chamusca – para não falar de Muge, Montargil e Chouto.

A elevação a matriz da igreja de Val de Cavalos, no séc. XVII, prenunciou a unidade administrativa daquela região para a qual não foi insignificante o contributo charnequenho. O estudo da invocação da paroquial mostra, tal como aconteceu nos primórdios da monarquia, que o território não ficou de fora das grandes correntes de pensamento religioso que caracterizam a mentalidade portuguesa, visíveis no culto a St.ª Maria e ao Divino Espírito Santo, coincidindo um com as concepções dominantes, desde D. Afonso Henriques e o outro, com a contra-reforma, movimentos marcantes que projectaram a nossa forma de ver e de estar no mundo.

O apagamento subsequente destas terras, fruto de situações complexas, que todavia lhes preservou a idiossincrasia, não impedirá hoje os seus habitantes tê-lo como vantagem se não deixarem de acreditar no futuro, ajustado à sua natureza.