Se a designação coubesse na época em que foi redigida, este autógrafo de D. Afonso V [1] poderia chamar-se bilhete, em vez de carta. Fica o leitor acidental refém da mensagem que ele leva, cativo do instante em que se fez cúmplice involuntário da premência de um recado e ávido de um desfecho que jamais saberá. Trata-se de um vestígio afectivo notável, por se tratar de uma nota do punho real. Igualmente é-o pelo período a que respeita e pelas pessoas aí mencionadas. De não menos valor é o facto desta carta ser proveniente do cartório do marquês de Lavradio. Passou para ali, segundo aparenta, do cartório privado do reposteiro-mor do rei, Gomes Soares, que teve o cuidado de anotar à margem: Carta d’ el-rei Dom Afonso para meu pai o que, por si só, vale uma circunstanciada dissertação.

Em súmula, percebe-se da leitura que o Africano sentira algum desapontamento, por não se ter cruzado ou, dito doutra forma, se ter desencontrado de Rui Gomes de Alvarenga, na comarca para onde se havia deslocado e onde estanciava. Tendo indagado da razão do desencontro e do paradeiro do vassalo, ficara com a impressão de que a ausência se ficara a dever não a míngua de vontade de o servir, mas a alguma necessidade particular ou por cuidar, que o soberano tanto dele não havia mester.

Fornece D. Afonso V um cronograma da sua permanência e roteiro provável do seu itinerário, na esperança de que o conde palatino pudesse aprontar-se para ir ao seu encontro, reiterando ao mesmo tempo a consideração que lhe merecia o aconselhamento a que estava habituado da parte dele, não deixando de enaltecer a conta em que o tinha, ainda que, outros pudessem tê-lo por de somenos valia.

Quando alguém se vê na posse de um achado desta natureza, não poderá deixar de se interpelar sobre a sua real importância e significado, enquanto procura respostas que satisfaçam à sua curiosidade.


[1] BNP, Reservados, Avulsos, Cx. 226, n.º 6. 

 

Artigo completo em revista Raízes & Memórias, N.º 29 de Dezembro de 2012