A breve notícia da enfermidade que causou a morte ao jovem conde da Póvoa, o segundo daquele título, D. João Maria[1] , que agora se publica, foi elaborada com os detalhes médicos relativos ao evoluir da doença que o vitimou e precedida de um preâmbulo que, como se depreende das próprias palavras do autor e médico assistente do menino, visavam o prelo e a sua divulgação. Não consta que tal tenha chegado a verificar-se, talvez com mágoa do autor, que gostaria de ter homenageado publicamente o seu nobre paciente, independentemente da fama que isso lhe granjeasse, seguindo o seu próprio raciocínio implícito.

Consta do corpo da notícia que o jovem aristocrata faleceu às 8 horas da manhã, no dia de 8 de Julho de 1837, havia completado onze anos e meio de vida. A informação circunstanciada da doença, morte e autópsia fornecem à curiosidade histórica pormenores de grande importância na sua abrangência e, contextualizados, podem constituir-se como indicadores interessantes, sob diversos pontos de vista, nomeadamente os costumes e o estado da medicina, nos primórdios do liberalismo em Portugal.

Por outro lado, o conteúdo da notícia suscita algumas memórias interessantes. Têm essas memórias a ver com facto de o sarampo, doença comum, apesar de epidémica, estar controlada e parecer ridículo que alguém possa morrer de sarampo, pelo menos em termos de cultura ocidental, nos dias de hoje. Contudo, não há muito tempo, as mães costumavam recear que, atingidos de sarampo, os seus filhos pudessem ser vítimas fatais se acaso este recolhesse, como se dizia.

Fazia parte do tratamento a quarentena, acompanhada de rituais de limpeza, num espaço sem correntes de ar e pouco iluminado, tapando-se o doente com cobertores, de preferência encarnados. Este estar parado, numa idade apropriada ao movimento e à irrequietude - a moléstia surge maioritariamente na infância - pode dar uma ideia da impaciência que se gerava por parte do doente e no mal estar dos que vigiavam os seus actos, desvelada e carinhosamente. Mais de um filho na casa significava trabalhos dobrados, naturalmente.

No que ao menino conde diz respeito, evidencia-se o mimo com que era tratado, permitindo-se opinar e recusar o tratamento que foi sugerido e que era imposto pelo hábito, essa coisa inimaginável, actualmente, que é a sangria. O médico considera à partida "uma fatalidade inexplicável" o facto de o conde não ter consentido em que aquele tratamento lhe fosse aplicado. O que é verdade é que, segundo o testemunho do clínico, a febre desapareceu, dando origem a um à vontade de circulação do doente, dentro e fora dos seus aposentos, para o jardim contíguo, que corresponde, talvez, a que menino tivesse sido vítima fatal daquilo que o senso popular apelida de recolha da doença.

Independentemente do julgamento que se faça sobre o método utilizado na cura - que se prende com outro tipo de questões - ressalta a atitude, fruto da educação do jovem conde, que carece de ser enquadrada e particularizada nos seus antecedentes.

A certo passo do seu discurso, o médico lembra um pormenor, a seu ver importante, que marcou indelevelmente o crescimento do menino, já de si, apresentando características genéticas que a par da bondade natural "dos Angejas" que conde herdara, "a desventura de perder seu bom pai", funesto acontecimento que teve lugar quando D. João Maria contava apenas sete anos. D. João Maria era o primogénito vivo, nascido do casamento de seus pais, que se viu rodeado de toda uma panóplia de atenções própria do seu estatuto, na mais tenra idade e sem a referência paterna[2].

Acresce ainda a circunstância de o menino ter nascido numa fase tardia da vida do pai, que se contrapunha à juventude da mãe. É pois de esperar que, além do mais, o menino fosse caprichoso, pese embora o esforço dos progenitores em inculcar no jovem uma "cultura moral e científica" quando se aperceberam que, razões de ordem somática impediam, eventualmente, o progresso espiritual do menino, pelo que "principiaram a tomar [aquelas] na mais séria consideração" - testemunha o médico.

Parece óbvio que as preocupações com a saúde de D. João Maria obrigaram à assistência permanente de um médico, o que se depreende das palavras finais do clínico quando diz: "Testemunho de gratidão e saudade às cinzas do Ilm.º e Exm.º Sr. Conde da Póvoa oferece o seu médico assistente Caetano Maria Ferreira da Silva Beirão" corroborado pelo conhecimento que o mesmo revela de momentos anteriores da vida do jovem ao referir-se ao acompanhamento "durante a vida e moléstia do Exm.º Sr. Conde da Póvoa" ou sobre "a amizade e a gratidão [que] de mim exigiam, não pôde conter-se a minha saudade".

O médico afirma que "reluzia nele [D. João] um temperamento linfático bem pronunciado que os anos e a educação não tiveram força de mudar jamais" relacionando este diagnóstico com uma herança patológica do pai em quem seriam também manifestas características "de uma constituição hepática", visíveis nos suores excessivos que lhe humedeciam a pela constantemente. São próprios do temperamento linfático uma tendência às inflamações de resolução demorada, baixa de resistência, pele pastosa e pálida e formação abundante de tecido linfático.[3]

Sem pretender negar a ascendência de "constituição hepática" que o jovem conde adquirira de seu pai - na opinião do médico - deve ressalvar-se, contudo, que dificilmente alguém que sofresse de tais sintomas num grau elevado, jamais poderia ter-se constituído como criador de uma fortuna prodigiosa como aquela que o 1.º conde, Henrique Teixeira de Sampaio, deixara. O estado de prostração, os suores excessivos e outros sintomas poderiam ter-se tornado mais frequentes no final da vida do conde da Póvoa, que o mesmo clínico pode ter, eventualmente, seguido de perto.

Foi sobre os ombros deste menino que, segundo o médico assistente, era de uma saúde frágil e compleição doentia "posto que não acusava moléstia alguma bem caracterizada", que recaiu a herança de uma das maiores riquezas do país na primeira metade do século XIX, à idade de sete anos e poucos meses, quando morreu o conde da Póvoa seu pai.[4]

No pleno gozo dos seus títulos honoríficos e políticos, Henrique Teixeira de Sampaio, que ocupou vários cargos de responsabilidade, na esfera do poder sendo, então, conselheiro de Estado e presidente do Real Erário, depois de ter trabalhado no governo de Palmela, no lugar de Mouzinho da Silveira, Henrique Teixeira de Sampaio, conde da Póvoa desde Julho de 1823, resolveu casar-se. A noiva escolhida foi D. Luísa Maria Baltazar de Noronha, filha do 1.º conde de Peniche, D. Caetano de Noronha e de sua esposa, já falecida, D. Maria José de Almeida (Angeja).[5]

Imediatamente antes, o rei tinha-lhe concedido por decreto[6] autorização para instituir um morgado do capital de três milhões de cruzados, de que o conde da Póvoa fez escritura pública, no próprio dia do casamento, podendo deixar expresso no seu testamento que a celebração matrimonial se seguira à instituição pública do vínculo. O homem de negócios não deixava nada ao acaso. Talvez por isso, alguém escreveu, no seu tempo, que o conde só conhecia aquilo que fosse do seu interesse pessoal.[7]

As condições deste vínculo e do contrato pré-matrimonial viriam a estar, com frequência, na ordem do dia da sociedade lisboeta contemporânea, desde a leitura do testamento do conde da Póvoa até à morte de D. Luísa de Maria de Noronha - pelo casamento condessa da Póvoa - que ocorreu trinta e sete anos depois.[8]

A principal condição vinculativa do morgado radica na sua indivisibilidade entre os herdeiros, passando por morte do conde da Póvoa ao seu sucessor, o filho varão primogénito. Outra das condições é a declaração de obrigação de incorporação naquele vínculo de todos os bens de raiz comprados e benfeitorizados, tanto antes como depois da sua instituição, além de no uso mesmo deverem ser também incorporados os bens móveis como jóias de uso pessoal e as baixelas de prata do conde da Póvoa.[9] Não menos importante é a determinação de que fossem adquiridos bens de raiz no valor dos três milhões de cruzados correspondentes, que seriam incorporados no dito morgado. A este ficava também vinculada a legítima do filho primogénito e sucessor, assim como o capital que excedesse a sua terça depois de pagos os legados deixados em testamento.

De acordo com a vontade do conde, através do testamento que fez redigir pouco antes da sua morte[10], seriam testamenteiros e tutores dos seus filhos menores "a excelentíssima senhora condessa de Peniche"[11] e o desembargador do paço João Baptista Esteves[12] "os quais pela verdadeira amizade, que por experiência conheço sempre me tiveram" - palavras do conde - esperando, por isso, que haviam de "com o maior desvelo reger assim suas pessoas [dos seus filhos] como seus bens".

O conde da Póvoa fez também questão de deixar os menores encomendados ao rei - na altura, D. Miguel - pedindo-lhe que concedesse  e determinasse "aquelas providências que os tutores [que nomeava] suplicassem, além da administração, ou qualquer outro objecto que lhes [pudesse] ser útil" . Implorava aquela graça, o conde da Póvoa, sustentado "não só pela fidelidade  e elo com que sempre [se empregara] no real serviço nos importantes lugares que [teve] a honra de servir no reinado do Augusto Pai do dito [senhor], mas também por ser [seu filho] primogénito afilhado de S.a Majestade Imperial  e Real".[13]

Não estão esclarecidas as razões que teriam levado o conde da Póvoa a retirar a tutoria dos filhos a D . Luísa Maria Noronha, sua esposa. Na verdade, ela manter-se-à apenas um dos membros do conselho de família que é alargado inclusive ao coadjuvante do tutor, o senhor Henrique Luís Mouchet, entre outros próximos familiares, como se deduz das actas respectivas. Aquele facto retirou à viúva capacidade de intervenção e manobra, ao longo dos processos que veio a desencadear posteriormente, devido ao comprometimento da sua filha D. Maria Luísa Noronha de Sampaio com D. Domingos de Sousa Holstein, filho do 1.º duque de Palmela, herdeira universal dos bens do conde da Póvoa.

Contudo, ainda assim, é na sua qualidade de mãe que  a condessa da Póvoa suscita esforços junto do protocolo real para o reconhecimento do título de  conde da Póvoa a D. João Maria, dando verificação ao cumprimento da atribuição do mesmo em segunda vida, como sucessor legítimo  do  conde da Póvoa, seu pai, conforme consta da carta de D. Maria II.[14] Nesta data, o jovem D. João Maria contava apenas oito anos e oito meses de idade.[15]

Cruzando os dados disponíveis, pode afirmar-se que  o ano seguinte à morte de Henrique Teixeira de Sampaio foi um ano plena de actividades em que o desembargador João Baptista Esteves ­ figura omnipresente em todos os actos que aos seus pupilos dissessem respeito ­ após a primeira reunião do conselho de família, se atarefou a dar cumprimento aos desejos manifestos no testamento do conde da Póvoa, seu  amigo. E este o ano não apenas dos esponsais da menina D. Maria Luísa com o marquês de Faial como é o ano de grande actividade  e de aplicação dos capitais  do vínculo instituído pelo 1.º conde da Póvoa. Revelando um grande conhecimento  do terreno ou bem rodeado de conhecedores, João Baptista Esteves é o principal  obreiro das aquisições de imóveis e bens de raiz para completar a herança do conde, como era seu desejo. As grandes propriedades provindas de arrematações de bens nacionais, sobretudo, foram mais valias de uma aplicação acertada, decidida pelo desembargador do paço  e que hoje constituem valores patrimoniais da família e da herança Palmela.

Pode dizer-se que, com nove anos incompletos,  o 2.º conde da Póvoa dispunha de todos os privilégios honoríficos, sociais  e materiais para dar lugar aos vaticínios que lhe augurava, com saudade,  o seu médico assistente : "que posto o senhor conde da Póvoa jamais viesse a ser o esplendor da sua família à custa de seus conhecimentos, sê-lo-ia talvez à custa de suas virtudes! E reunindo fortuna dos Sampaios a bondade dos Angejas, poderia talvez algum dia ser credor d'alto nome entre os portugueses!". Infelizmente, ao menino faltou-lhe algo de imprescindível para o usufruto de tão altas esperanças, depositadas nele por todos que o amavam: a vida.


Notas

[1] Gostaria de achar a expressão equivalente em português para condesinho tal como o francês le petit prince corresponde maravilhosamente ao nosso principezinho, mas receio que isso não seja possível. Não regista o léxico português esse conceito enquanto que pequeno conde ficaria sem sentido, pelo menos sem o sentido afectivo que aqui se pretende encarecer. Fiquemo-nos, então, pelo aristocrata le petit comte. Corresponde, socialmente, ao gosto da época da vida breve do 2.º conde da Póvoa, D. João Maria.

[2] Do casamento do 1.º conde com a filha do conde de Peniche, D. Luísa de Noronha, nascera antes outra criança que morreu de poucos meses. Fora do casamento, nascera ao conde da Póvoa um filho que legitimou e reconheceu, conforme testamento final, "filho de mãe ilustre" a quem foi dado o seu nome. Ainda do matrimónio, teve o 1.º conde uma menina D. Maria Luísa que, à morte de seu irmão, D. João Maria, se tornou a herdeira da fortuna Póvoa.

 
[3] Conf. José Pedro Machado, Grande Dicionário da Língua Portuguesa.
 
[4] O 1.º conde da Póvoa, Henrique Teixeira de Sampaio faleceu no dia 27 de Março de 1833.
 
[5] O casamento realizou-se no dia de Março de 1824, no oratório particular do pai da noiva, na freguesia de N.ª S.ª do Socorro.
 

[6] De 27.2.1824

[7] "homem ignorantíssimo para tudo o que não é interesse seu". Aragão Morato, Memórias, citado por Jorge Forjaz, Os Teixeira de Sampaio da ilha Terceira, Porto, 2001, p.94.

[8] A condessa da Póvoa faleceu em 25.2.1870.

[9] A baixela de prata que se compunha dos serviços de mesa respectivos, candelabros e outros acessório foi adquirida em Londres ao ourives Stoor & Mortimer em 1822. As jóias pessoais do conde da Póvoa foram avaliadas em 10 110$000 reis, em Junho de 1833. (ANTT. Fundo Palmela)

[10] Testamento redigido em sua casa no dia 2.3.1833.

[11] D. Isabel Teles da Silva, cunhada de sua esposa, que era também madrinha de D. Maria Luísa, filha do conde da Póvoa.

[12] O desembargador João Baptista Esteves tinha sido nomeado antes testamenteiro, por incumbência real, do seu testamento da princesa D. Maria Francisca Benedita, cargo cujo desempenho lhe valeu ser nomeado conselheiro por D. Miguel, em Dezembro de 1831, título que lhe seria posteriormente confirmado por D. Pedro. Por seu testamento, D. Maria Francisca Benedita criou o hospital militar de Runa, tendo deixado uma sua propriedade, no local, para a edificação, além dos dinheiros para levar a cabo a obra que ainda existe, em memória de seu marido o príncipe D. José.

[13] Extractos do testamento do conde da Póvoa, ANTT. Testamento do conde da Póvoa, in Sentença cível de quitação e exoneração, etc. Distrito administrativo de Lisboa, 4.º julgado da capital, de 22.3.1841.

[14] Verificação por dec. de 2.8.1834, ANTT, R.G. Mercês D. Maria II, Liv. 2, fls. 104v.

[15] D. João Maria nasceu a 9.1.1826 e foi baptizado dez dias depois na capela do palácio de seus pais, ao Rato, freguesia de S. Mamede.