Resenha Biográfica

Em Portugal reconquista e ordens militares são matérias indissociáveis. Falar duma é ocasião para falar das outras, pelas razões sobejamente conhecidas dos leitores de História. A ordem de Santiago nasceu em Leão dentro do contexto da guerra de cruzada, sob a égide do rei Fernando II, em 1170, tendo penetrado no reino português, logo próximo da sua génese, onde se crê ter contribuído para fortalecer as hostes do nosso primeiro rei sendo, geralmente, aceite a ideia de que os freires teriam recebido recompensas de D. Afonso Henriques nos finais dos anos 80 (1186), embora seja discutível se se teriam fixado a partir daquela data, imediatamente ou não. Todavia, hoje não restam dúvidas, quanto às doações do herdeiro do Conquistador, D. Sancho I, que acarinhou sempre o ideal da ordem de Uclés – Millitia Sancti Jacobi – primeiramente conhecida como ordem de Cáceres, por ter tido aí casa, no seu início.

As invasões almóadas que chegaram até Leiria, tendo as tropas sarracenas cercado Tomar e Torres Novas, factos historicamente comprovados, no ano de 1190, puseram em perigo as anteriores conquistas portuguesas, fazendo recuar a fronteira, novamente, para a linha do Tejo. Por isso, no ano de 1193 recebem os espatários recompensas do rei Povoador, em terras, como meio de manutenção dos cavaleiros, em Santarém e seu termo, na margem sul do Tejo, enquanto avançam para sul, recuperando novamente os baluartes que possibilitaram aos portugueses vitórias mais definitivas.


A comenda da Lagoalva nasceu naquele ano num documento memorável que mereceu a atenção de Alexandre Herculano para discutir a entrada de D. Afonso Henriques na vila amuralhada, aquando da sua conquista, não se podendo, por conseguinte, dizer que seja desconhecido. Porém, o mesmo documento não tinha sido ainda objecto do estudo que merece, em relação à propriedade ali designada por Lacuna Nigra e que, se revelaria, posteriormente, com uma nova identidade, sem mudar de condição. A partir deste dado incontornável, pode acompanhar-se com algum detalhe a vida daquela comenda, sendo possível reconhecer momentos da História nacional, através das suas vicissitudes, nomeadamente, as lutas internas entre o conde de Bolonha e o rei seu irmão, D. Sancho II, a alienação do património da ordem em mãos estranhas e as inquirições de D. Afonso III e de D. Dinis a que não são estranhas as medidas do poder real, face à nobreza e ao poder eclesiástico.


Ainda no reinado de D. Dinis e com desenlace no de D. Afonso IV, assiste-se à separação definitiva do ramo português da ordem santiaguista da casa-mãe de Uclés, não sem antes um Mestre de origem portuguesa – D. Paio Peres Correia – ter conquistado para Portugal o reino do Algarve, onde tanto se notabilizou, merecendo do rei D. Afonso III um respeito e uma amizade incondicionais. Nas situações sintomáticas daqueles períodos agitados, deambula a comenda da Lagoalva, também ela, pelas mãos de cavaleiros de primeira estirpe até, finalmente, vir a ser reencontrada nas mãos dos príncipes de Avis, a partir do infante D. João que, numa idade moderna da ordem, depois dos conflitos com Castela e da morte do último Mestre português eleito, em termos tradicionais, pelos Treze, D. Mem Rodrigues de Vasconcelos, ainda que não tivesse sido alheia à escolha, a influência pessoal do Mestre de Avis, seu particular amigo.


A escassez da população, além de outros factores, nada menosprezáveis, como seja a instabilidade provocada pelas guerras castelhanas (e já antes, as fernandinas), teria facilitado a alienação, em sesmaria, das férteis lezírias ribatejanas e justificado, em parte, a entrega da Lagoalva ao infante D. João, a título particular, desvinculando-se da sua condição de comenda, tanto quanto os documentos deixam perceber, a partir das datas limite de 1431 e 1438, situação em que permaneceu até à morte do infante, tendo depois passado para as mãos do seu sobrinho, o infante D. Fernando, irmão do rei D. Afonso V, em 1448.


É já com D. João II, ainda príncipe herdeiro, depois deste assumir o mestrado da ordem de Santiago, que a Lagoalva é reencontrada na situação de comenda da Mesa Mestral. D. João tinha encetado uma política de reorganização dos bens espirituais e materiais da ordem, em certa medida, baseado na consulta à casa de Uclés, feita por D. Beatriz (mulher do infante D. Fernando e sogra do Príncipe Perfeito) durante a menoridade do filho D. João, que tinha assumido a sucessão do mestrado depois da morte do infante D. Fernando, por um curto período de tempo, moralizando a vida da ordem de Santiago, de que é expoente máximo o Capitulo realizado em Maio de 1484 em Santarém.


Num ambiente de excepção, verifica-se a atribuição da Lagoalva (além de St.ª Maria da Sabonha de Alcochete e as rendas da portagem de Setúbal) ao cavaleiro Pero d’ Anhaia, tendo permanecido nas mãos daquela família nos cem anos seguintes. A Lagoalva não voltaria à Mesa Mestral, mas serviu os interesses de Portugal como parte significativa do sustento do navegador e cavaleiro que fundou a fortaleza de Sofala e dos seus descendentes, também homens de armas e cavaleiros de Santiago, conforme podemos acompanhar no volume 2 deste trabalho, onde a odisseia da Lagoalva prosseguirá.
O rei D. João III obterá do papa Júlio III a integração na coroa das ordens monástico-militares, tendo alcançado com este passo o último desígnio da centralização dos seus bens, depois das medidas tomadas pelo Príncipe Perfeito no sentido de fazer convergir no filho, D. Jorge de Lencastre, a administração das três ordens, o que aconteceu, em parte, depois deste ficar à frente dos mestrados de Avis e de Santiago, em 1491.


Ao senhor D. Jorge de Lencastre ficará a ordem de Santiago a dever muito da sua boa administração e a primeira impressão da sua Regra, Estatutos e Definições no ano de 1509.