Transcrição da cerimónia de apresentação - Os Anhaias

Dr. Fernando Mendes (Imagens & Letras):

 
Vou ter pouco que falar quando temos aqui connosco a autora do livro e o Dr. Pedro Canavarro que vão proceder à apresentação deste magnífico trabalho. Há uma nota que eu gostaria de dar: é uma visão de que este tipo de livros normalmente é editado palas Câmaras Municipais ou pelo pleno investimento dos autores. Este, em concreto, só foi possível pelo patrocínio da Quinta da Lagoalva de Cima. Eu aproveitava para saudar a Sr.ª Dr.ª Alice Lázaro pelo brilhante trabalho e fazer o registo do patrocinador que o permitiu realizar e estar aqui connosco, hoje e fazer o registo deste patrocínio que é mais do que merecido. Obrigado.

D. Isabel Juliana de Sousa Holstein Beck-Campilho (Quinta da Lagoalva de Cima) que leu o seu discurso:

Palavras proferidas pela senhora D. Isabel Juliana de Sousa Holstein-Beck Campilho por ocasião do lançamento do 2.º volume de CAVALEIROS DE SANTIAGO SENHORES DA LAGOALVA – OS ANHAIAS

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Gostaria, justamente, de realçar a alegria enorme e o grande prazer que tenho de, em meu nome pessoal e da Casa da Lagoalva, (e de todos os meus filhos) termos participado neste projecto sobre a história desta terra cujo passado excede em muito o das nossas vidas.
 
Ao tomarmos conhecimento do trabalho de levantamento documental sobre a antiga Lagoalva, levado a cabo pela Mª. Alice Lázaro na Torre do Tombo, associámo-nos, desde a primeira hora, à proposta de edição, com vista à divulgação desses mesmos documentos inéditos. A história desta terra merece-o e nós não podíamos deixar de apoiar tão interessante ideia.
 
À semelhança do que se passa por essa Europa fora, muitos herdeiros e proprietários de casas agrícolas têm vindo a apoiar a investigação e a divulgação de entidades e marcas, quase sempre indissociáveis da história local.
 
É este o caso da Casa da Lagoalva. É que a Lagoalva não é apenas uma propriedade particular, ela é uma referência ao passado comum de muitas gerações de gentes, que aqui festejamos em conjunto.
 
Pelo facto, faço questão de realçar o meu regozijo e cumprimento todos os que honraram esta festa com a sua presença.
 
Livraria Tintas & Letras, Alpiarça, 28 de Março de 2007
 
Agradeço a todos os que colaboraram e aos meus filhos, que tanto participaram nesta alegria, para podermos estar aqui todos juntos, à M.ª Alice e ao Pedro, agradeço muito do coração.

Prof. Dr. Pedro Canavarro – apresentador do livro. Depois de cumprimentar disse:

 
Gostaria de começar desde já… desde já, até porque é mesmo o princípio, agradecer à Dr.ª Alice Lázaro, porque quando nós somos professores (e já lá vão muitos anos), foram centenas de pessoas, milhares se calhar, no meu caso e, como é evidente, torna-se difícil lembrar… Não conseguimos ter memória para expressar os bons quanto mais os maus ou os medíocres, torna-se difícil… são eles que nos reconhecem. E foi o que aconteceu hoje – embora seja uma boa aluna – (à parte: não é o meu caso… tive dezasseis… risos. Já não me recordava – disse do Dr. Canavarro – embora a sua fotografia me dissesse qualquer coisa. Ah! Não diz nada…. Aqui a velha sou eu… (Alice Lázaro) risos…. Não me preocupei, porque achei que não sabendo quem é quem, me sentia mais à vontade para fazer uma leitura, de uma forma mais imparcial. Mas o que eu quero agradecer-lhe nem é sequer o trabalho, mas o resultado desse trabalho, pelo menos para mim, hoje. Fazer o percurso de Lisboa – vivo em Lisboa e ainda vou hoje para Lisboa – a Alpiarça, seguindo um percurso, chamemos-lhe assim, visual, metafórico. Ou seja: eu parti de Lisboa, cronologicamente, imaginando-me em Lisboa do tempo de Pero d’Anhaia e vim, por aí acima, até chegar aqui a esta casa. E é fantástico! Aquilo que realmente uma investigação em História pode permitir ao cidadão comum, como eu. De repente, fazer um caminho desde sempre, com olhos fechados, fazê-lo hoje com os olhos abertos e transferir-me para o século XVI… achei fantástico! Saí de Lisboa, passando na praça do Comércio e estava esta transparência fantástica que nossa cidade capital tem, uma luminosidade lindíssima, que não se explica e nos permite ler de uma forma extraordinária todos os recortes da praça do Comércio e, sobretudo, aqueles dois níveis do Terreiro do Paço – ex-Terreiro do Paço, ainda mais conhecido pela maioria dos portugueses por Terreiro do Paço, do que praça do Comércio – e a leitura do castelo. E de repente, quando de carro, devagarinho (até porque o trânsito já era algum), me permite olhar para todo aquele sector ocidental, quando estamos voltado para o rio Tejo, hoje, enfim, as arcadas dos ministérios que ali estão, mas pensar que naquele espaço estava o paço da Ribeira e aqueles torreões de hoje, onde existiu o grande e único torreão do palácio da Ribeira, durante a vida de D. João II que, abandona o castelo e desce para a Baixa, para a cidade e confronta-se com o Tejo, ponto de partida e ponto de chegada das suas naus. Ou seja: deixa o castelo medieval, deixa o espírito de guerreiro, de cavaleiro, conquistador, identificado como cruzado também, (quantos mais conseguisse conquistar para a fé católica, enfim, mais ele teria com certeza a sua alma garantida no céu e os beneplácitos da igreja e do Vaticano) e deixa esse espírito medieval, vá lá, esse espírito de cavalaria, para deixar o cavalo no castelo e apanhar o barco ou a nau ou a caravela, em primeiro lugar (durante uns tempos). Neste movimento da colina para a cidade, estamos a abandonar uma visão, até superior, de uma determinada hierarquia feudal para descermos a uma praça aberta ao outro, que é a filosofia dos descobrimentos. Isto está em cada um de nós e está oficializado na História portuguesa, como é, do início dos descobrimentos. E, em cada um de nós, há sempre esse desejo de descobrir o outro, esse fascínio de nos considerarmos, acho eu, por muito que o neguemos, quão relativo é o nosso estar, da nossa maneira de ser, porque sabemos que há algumas coisas, por mais convencidos que sejamos de nós próprios, se fizermos um mínimo exame de consciência: que pequenino que eu sou! Quem sou eu, dentro da cosmogonia? Dentro de um processo mundial? Nada! Fazemos qualquer coisa, assinamos da maneira que podemos o nosso tempo, mas esse tempo é, normalmente, enriquecido pelo outro. E se estivermos abertos ao outro, o nosso tempo é muito maior, é muito mais seguro. E é esse posicionamento régio de descer para a Baixa. A certa altura, vamos para a Baixa, vamos para o Terreiro do Paço. Dormia o rei sobre a Casa das Especiarias, porque debaixo do paço ficava a Casa da Guiné, a Casa da Mina, a Casa da Índia…portanto todas as especiarias que preconizam tudo aquilo que era trazido por nós, graças ao encontro, à conquista ou à sedução… seja qual for o posicionamento que o humano tome, perante o outro, esse resultado era trazido pelas nossas caravelas e pelas nossas naus, para debaixo do sítio, onde o rei dormia. Portanto, o rei dormia sobre as suas próprias especiarias, controlava as suas especiarias... Nessa torre que descia directamente para o Tejo, para os barcos que aí acostavam… junto daquilo que foi, durante muito tempo, a Ribeira das Naus. Isto é muito fascinante, pelo menos para mim, pensar e olhar sempre os desenvolvimentos urbanos e perceber a emoção das cidades, que é uma matéria que me agrada enormemente e, portanto, constatámos que nós, ali, naquele coração e naquilo que foi a capital do império, temos essa leitura tão clara, desse mundo medieval, mais acima e o mundo renascentista, à descoberta do homem novo… Portanto, uma passagem do cavalo para as naus: uma passagem da grande hierarquização, para uma abertura e um trazer à Europa o homem novo, fosse ele, sobretudo do Brasil – da África ainda vinha como escravo – não quer dizer que do Brasil não fosse também, mas havia outras referências, graças ao estado dos jesuítas, de que essa gente nova que entra pelo nosso Terreiro do Paço é gente com os mesmos direitos (ou não, comparados com os nossos), é gente – embora viva – terão alma? Como é que é? Portanto, as interrogações de surpresa, perante esses seres humanos, que nós vamos descobrir e que os trazemos à Europa, para que eles se integrem, ao fim e ao cabo, nos novos valores para eles, o que hoje chamamos cidadania. Por isso, nós nunca devemos temer tanto a abertura ao novo, como hoje se teme, perante a dominação e a globalização… foi sempre assim. Nós próprios fomos os primeiros a fazer a globalização, através dos descobrimentos. Fomos nós os primeiros a trazer outros migrantes, ou emigrantes, trazidos todos para a Europa e a pressionar os poderes de então, para o se se justifica ou não, se eles são homens, sendo homens se têm alma e se a alma merece ser tratada como a nossa alma. E, portanto, se fomos tão longe e tão fundo, nestas preocupações do século XVI, quem somos nós, para estarmos agora a passar por esta coisa, apavorados e a tornarmo-nos extremamente conservadores, com medo do outro? E é o que se está a passar connosco, na nossa sociedade. Nós estamos com medo e quando as pessoas têm medo, não há nada pior porque não sabem olhar e fecham-se: fechando a sua propriedade, fechando a sua casa, fechando-se sobre si mesmo, por receio e quando a pessoa começa a recear, não está bem, começa a perder-se e a partir daí, é uma bola de neve, nas perdas sucessivas de tudo…sobretudo de si próprio.
 
Ora, a partir de Lisboa, com este prazer de ver a transparência que me permitia, neste fim de tarde, este casamento entre a Idade Média e o Renascimento… Ao fim e ao cabo são estas balizas que aqui a nossa amiga e autora coloca no livro: o século XV e o século XVI. E, depois, vim por aí acima…e, vindo por aí acima, comecei a divertir-me, (a divertir-me no bom sentido da palavra), a dar-me um enorme prazer, pensando que ia subir no auto-estrada – e quase começava a sentir o cheiro das beneditinas em Almoster – e pensando naquele convento, que a igreja ainda é bonita e, enfim, relativamente restaurada, ultimamente, embora o claustro só tenha um lado, mas que a gente supõe que seja um grande claustro e sentir que, senhoras de Anhaias, irmãs destes que foram comendadores da Lagoalva, ali meditaram, para ali levaram os seus bens, ali levaram, se calhar, as suas amas (chamemos-lhes assim – quase) ou as suas criadas, para tomar conta delas nos conventos, enfim, a vida não é tão dura, pelo menos que se imagine, com este grau de pessoas … Já tinha estado no espaço cronológico de capital do império e agora começava a aproximar-me da família… e estas senhoras estavam em Almoster.
 
Depois, comecei a subir a calçada do Monte, em Santarém e vejo a indicação da capela da Senhora do Monte, capela que era base de um dos lazaretos de Santarém, com a sua alpendurada renascentista, onde pedras tumulares indicam que Anhaias tiveram aí ou, estão aí, sepultados e chego cá acima ao planalto. Contornei o que era antigamente, o passeio da rainha, hoje jardim da República, para me deparar com aquele edifício de S. Francisco, sempre por restaurar, porque as memórias parece que são tão ricas, que nem se sabe restaurá-lo. Por serem tão ricas as memórias, é largá-las… e lá recordei o Pero d’Anhaia a receber o hábito no tempo de D. João II e recebendo esse hábito até, também, como compensação, uma comenda e comecei a tomar a estrada da estação, para apanhar a ponte e quando comecei a descer a velha estrada da estação e me aproximei, pois já se vê a igreja de St.ª Iria – a colegiada de St.ª Iria – e aquilo que seria, concerteza… umas ruínas, pois a Ribeira não é mais do que uma ruína – e algumas delas seriam habitação dos Anhaias – da igreja dos Palhais, onde estariam também sepultados alguns dos Anhaias e quando se vem sentado, pela ponte, a olhar um bocadinho à distância, a começar a ver as terras da Lagoalva… começo a passar da margem direita, ainda urbana, embora mais restritamente, também, ainda com uma força grande do campo, mas passando para o campo. E cheguei aqui…
 
E, pois, que cheguei, em primeiro lugar queria dar-lhe os parabéns. Ainda bem que cheguei. Queria dar os parabéns à Sr.ª Dr.ª Margarida Durão Neves por esta livraria e pelas acções que tem levado aqui a cabo e que hoje festeja quatro anos da sua existência. Portanto, com toda a sinceridade, dou-lhe os meus parabéns, que eu sei que é muito difícil, difícil para funcionar, culturalmente, o que é que quer que seja, neste país, a não ser que tenhamos petróleo ou tenhamos casinos, portanto… não tem casino e não tem petróleo, torna-se difícil levar a cabo acções culturais e eu sei e continuo a saber, por experiência própria, as dificuldades que significa aventurar-nos na cultura e na procura, justamente, para que as pessoas tenham mais fartura e mais participação, no nosso país. Por conseguinte, muitos parabéns e espero que tenham muitos sucessos e muitos anos. É engraçado porque quando a cumprimento a si e ao seu marido (Dr. Jorge Neves) nesta realização, nesta concretização é, justamente, estar a integrar-me naquele vosso pensamento, que é festejamos quatro anos, mas há que festejar de uma forma mais dilatada. E ainda bem que há intenção das pessoas terem uma preocupação de ir mais longe… não é culto, é querer-se ir mais longe… quando hoje festejamos quinhentos anos. Não é só os vossos quatro, mas é quatro associados a quinhentos! E os quinhentos anos são os da construção da fortaleza de Sofala, no Índico e é – outra coisa fantástica com que me deparei ao ler este trabalho – é que em 1506, Pero d’Anhaia sai, expressamente, para construir a fortaleza de Sofala, para controlar e garantir toda a exploração do ouro (estamos na costa oriental de África), era a costa do Monomotapa que, juntamente com a cidade de Quíloa, era donde vinha o ouro de que Portugal necessitava, quanto mais não fosse, enfim, para a construção das naus e manutenção de toda aquela política e de toda aquela estratégia dos descobrimentos… Ele vai, especificamente, para construir a fortaleza e, quando a constrói, em 1506 – por isso, estamos a festejar os 500 anos, enfim, terminaram o ano passado, mas em datas não podemos ser assim tão rigorosos como isso (o que é que é um ano a mais ou um ano a menos, em quinhentos anos? Como dizem os japoneses dai dai (?) há que compreender e não valorizar e não sermos tão rigorosos) – é ano da morte dele.
 
É interessante em como este homem, primeiro comendador da Lagoalva, que se afirma na História e fica na História (não por ser comendador da Lagoalva… isto não é menosprezar – a importância da Lagoalva que a tem como direito – mas é por um facto que se insere história política e estratégica e militar do Portugal dos descobrimentos. O que é? - Vais nestas naus comandadas por D. Francisco de Almeida, para construíres Sofala, tens de te dar bem com o rei local, constróis Sofala e manténs aí essa presença portuguesa, porque faz parte duma estratégia, para controlar toda a costa de Monomotapa, por causa da pressão do ouro…
 
Mal constrói, morre no mesmo ano, de febres, naturalmente, que qualquer um estaria disposto a apanhar. Acho interessantíssimo este casamento de datas, entre os vossos quatro anos e estes quinhentos anos, por isso, porque é sempre necessário termos datas para arranjar ou para conseguir pretextos, para levarmos a cabo determinadas acções, senão achamos que não vale a pena… isso obriga-nos a tomar atenção. E, neste caso do Pero d’Anhaia ainda mais, porque estes são quinhentos anos de afirmação duma política e duma estratégia e, ao mesmo tempo, de morte: ele constrói e morre! Quero dizer: Anhaia assina com o seu esforço, com a experiência, que teria tido através das fortalezas de S. Jorge da Mina, do outro lado do Atlântico, na costa ocidental de África e assim que cumpre esta acção, assim quase como que diria ao rei: - não tenho mais que fazer, a História está construída, posso morrer em paz!
 
Isto, para dizer também, que temos que ter em conta as datas e são importantes as cronologias para as festejar… porque são efemérides que nos ajudam a rever muitos aspectos da nossa História e da nossa própria vida…
 
Queria, depois, naturalmente, dar também os parabéns à casa editora Imagens & Letras, na pessoa, aqui, do Dr. Fernando Mendes. Tirou-me um bocadinho as palavras, naquilo que disse e com as quais concordo, inteiramente. É um enorme esforço, concerteza, uma editora balançar-se a publicar este livro. Este trabalho é um trabalho notável, mas é um trabalho que é preciso fôlego para, se calhar, logo de partida, sabermos que o investimento é rentável. Infelizmente, é assim… Nem é preciso estarmos a escamotear… são realidades a nível da produção literária e das edições e da sua distribuição e da sua venda… Por isso, queria, com muita sinceridade, dar os parabéns ao senhor doutor e à vossa casa editora Imagens & Letras porque, realmente, achei muito importante.
 
Por último, queria, naturalmente, cumprimentar a Casa da Lagoalva – a Casa da Lagoalva de Cima – cumprimentar a família, a geração da Sr.ª D. Isabel de Sousa Holstein Campilho, os filhos que aqui estão presentes e, naturalmente, a administração presente. Todos sabemos estas situações… Hoje em dia, nada se passa em particular, isoladamente, tudo tem de se articular numa teia, para conseguir objectivos. E não separei os parabéns porque, embora se fale muito em mecenato, a lei do mecenato é muito pouco compensatória. Continuamos num país em que quase não vale a pena ser mecenas, porque não há grandes compensações a níveis fiscais e, portanto, é através duma compreensão, duma atitude muito humanista, de perceber que vale a pena estimular as pessoas à investigação e que produzir investigação produz resultados muito importantes, neste caso para a própria Lagoalva, neste caso para a própria família, hoje senhores da Lagoalva e para todos nós. Dou os meus parabéns à Casa, à Quinta e à Família da Lagoalva de Cima, por este gesto ao apoiar, mecenaticamente, este 2.º Volume e quase que me dá a garantia de que venha apoiar o primeiro e, depois, o terceiro para que o tríptico fique completo. Não quero alongar-me muito, porque quem tem de falar é a nossa autora – ela é que tem novidades para contar – mas mesmo assim, não resisto a duas outras comparações, que me entusiasmaram muito na leitura deste livro, que é a importância nele, dada à história local.
 
A história local o que é, ao fim e ao cabo? É quase como se comparássemos – e o Tejo ajuda-nos a dividir e ainda a perceber melhor – a história local, neste caso, é o termo de Santarém e é o concelho. É quase cidade, não sendo cidade na altura, embora fosse a mais interessante vila de Portugal, de então e o campo (neste caso aqui, as terras da Lagoalva). E o que acontece? Nem é uma dialéctica, é um movimento, casamento, neste caso, em paralelas. Por um lado, é importante ser de Santarém, que faz com que os senhores da Lagoalva – ou seja, os Anhaias do século XVI – se considerassem habitantes de Santarém. Isto prolonga-se até ao século XX. Havia, por vezes, grandes dificuldades em as pessoas assumirem que eram habitantes, na paisagem – chamemos-lhe assim – era-lhe necessária a referência de ir para a cidade e, Santarém assumiu isso, durante muito tempo (eu diria que até dentro do século XX, mas eu não queria entrar em História actual, porque até à História actual do século XIX e do século XX podíamos provar que esta mentalidade ainda se mantinha, o que é extraordinário, mas que é compreensível pela própria geografia, etc.). Ou seja: eles (Anhaias) tinham casa em Santarém, eles pagavam os dízimos à colegiada de St.ª Iria da Ribeira de Santarém, eles estão sepultados – alguns, naturalmente – em Santarém e algumas manas, como dizia, em Almoster. Portanto, Santarém tem a importância de dar um berço e uma segurança a quem olha para o campo, cá em cima. (Tem um interesse fantástico, aquela cidade! Aquela cidade – e eu não quero fugir, senão fico a falar horas a fio e tiro-lhe o tempo que tem…). Rapidamente: o grande fascínio que tem o estar em Santarém e a grande dificuldade em aceitar que em Santarém não se vê disto… e acho que pode ajudar muito – provavelmente há sempre uma crítica: em Santarém não acontece isto, em Santarém não há uma boa livraria como esta, o que é verdade, em Santarém não há sei que mais… não pode haver e eu, que sou santareno, (parece quase inacreditável, dizer que não pode haver…). Estas coisas de grande qualidade, ao ser institucionalizadas, parece que não pode ou não devem haver. Porquê? Porque o santareno – se quisermos pedir à nossa origem mais próxima dos visigodos ou escalabitanos, se quisermos ir à mais anterior dos romanos – têm uma visão horizontal, quando nas cidades todas ou vilas – como no caso de Alpiarça – se tem uma visão vertical e no país, eu acho que Santarém tem, a única cidade, (não sei se haverá outra), cujo pensamento de quem lá nasce é um pensamento assim… (horizontal), porque normalmente, todas as pessoas que lá nascem tem uma nesga de vista para fora da cidade. Então olha-se para fora. Nós não olhamos para a cidade. É que nós estamos habituados a olhar para os campos da Lagoalva, os campos de Alpiarça, o olhar para Almeirim, a olhar para a serra dos Candeeiros, a olhar para o Montejunto, portanto, a nossa satisfação é termos uma leitura para o exterior e a nossa realização é sairmos para dizermos: ai! que saudades que tenho de Santarém, para voltar nem que fosse de barco. Mas a visão vertical que há nas outras cidades é a visão de quem trabalha na vertical, tem contacto com os seus vizinhos, tem os pés na terra porque não tem perspectivas de ver mais além. Para ver mais além, daquelas terras que têm castelo (basta pensar em Évora, basta pensar em Braga, em Beja, eu sei lá, em Viana, na maioria das capitais de distrito de Portugal, nós temos que subir à muralha para termos a vista, porque se não subirmos o que vemos é planura das casas das ruas… enfim, portanto temos confiança nos nossos vizinhos que está ali, ali fixo. Santarém não. Santarém está feito todo a subir. O santareno necessita de Santarém para lhe dar aquela nobilidade, naquela altura, naturalmente, que o campo não lhe dava como hoje em que toda a gente se afirma, praticamente, no Alentejo, no Ribatejo, comprando aqui e acolá para ser. Hoje é preciso ter uma casa fora do local onde habitamos para se poder ser mais qualquer coisa, neste princípio do século XXI. Portanto, hoje, somos tudo. Todos têm casa em qualquer lado e quem não tem fica fechado, tem vergonha quase… Bom! Isto para dizer que este aspecto paralelo me parece interessante, porque quando Pero d’Anhaia toma o hábito da ordem de Santiago em 1484, em Santarém, ele recebe imediatamente a comenda, comenda que na altura era simbólica, sobretudo, era prestigiante, mas que havia penso – a senhora doutora saberá mais do que eu – havia uma estratégia política quando se dava as comendas e a quem se dava as comendas. Havia a garantia neste caso de Pero d’Anhaia e da sua mulher D. Catarina do Carvalhal, que faziam parte da corte de D. João II e de D. Fernando… Quero dizer, D. João II ao dar a comenda a estas pessoas estava a procurar que eles trabalhassem a terra, mas dava-lhes a garantia de servirem no exército, ou seja, o facto de terem a comenda não os ilibava nem os libertava de ter que ir à guerra, até porque ir à guerra fazia parte da sua própria realização. Por isso, há esta acção sempre dual entre a posse da terra e, por outro lado, a acção política.
 
Este primeiro senhor da Lagoalva (da família Anhaia) teve o hábito em Maio, mas logo a 13 de Julho, já tem a comenda da Lagoalva, isto em 1484. (À parte: que boa memória a do senhor professor! Risos… De forma alguma!). Isto significa que a partir daí a Lagoalva passa durante 120 anos (quando passa para o desembargador Francisco Nogueira do tempo de Filipe II (À parte: isso já é outro romance! Claro, estou a deixar-lhe a entrada para o novo romance… risos). Ou seja, temos 120 anos em que os senhores Anhaias são comendadores, seja, temos quatro comendadores: o Pero, o Diogo, o Bastião (que o outro Pero parece que não era assim muito capaz…) e outro Pero d’Anhaia e temos quatro. Ou seja: é uma família. O que eu acho aqui ainda mais interessante outra vez, neste paralelismo entre Santarém e o campo e a casa do campo, neste caso – que era uma grande casa, naturalmente – pela extensão e pela riqueza da terra, são duas coisas: por um lado, é estas casas tornarem-se um pouco, imanes, de atracção familiar e a preocupação de as manter e a preocupação de serem referência… eu, digo, antecipadamente, começarem a ser solar… e sabem por que é que eu estou a dizer isto? Porque logo que termina a perda da independência portuguesa em 1580, com os Filipes, Lisboa perde todo o sentido de capital do império porque a capital é Madrid e passa a nobreza portuguesa a ir para o campo, ou fim e ao cabo, desocupa as suas casas na cidade, não no campo e isso provoca a independência portuguesa fácil, a que em poucos dias ou num só dia, ser aceite, em 1640. O país já não estava concentrado em Lisboa. O país estava realmente a viver (no campo) e automaticamente quando disseram: vamos ser independentes, nós já somos. Já temos a nossa própria economia, já estamos nas nossas regiões, estamos nas nossas casas. Lisboa era um fogo fátuo, que durou quando durou o império e enquanto era centralizado. O país passou a viver por si, as pequenas terras da orla marítima começam a ter os seus barcos, as produções do açúcar… com o Brasil começou-se a dar, novamente, via triângulo, Brasil, Angola e Portugal e a partir daí, ganhou uma independência até económica e quando os quarenta conjurados no palácio do Almada a 1.º de Dezembro declaram a independência de Portugal… (de facto, era preciso um momento de alguém dizer: vamos ser independentes!). Mas nunca se conseguia uma independência, se o país em si não estivesse predisposto a essa independência. Senão era uma batalha! Em vinte e quatro horas – pouco mais – foi o tempo de chegar as notícias a todo o país, de todo o país unanimemente, saber-se independente, porque vive já a independência. Isto para dizer o quê?
 
Para dizer que há outro aspecto da história local que é muito importante: o trabalho da mulher, que é muito importante já no século XIX (não é hoje). A mulher que trabalhava e mais do que isso, a mulher já estava por detrás dum grande homem. Este Pero d’Anhaia que morre, quando acaba de construir a sua fortaleza deixa, antes de partir, ensinada a mulher, D. Catarina de Carvalhal, a amanhar as terras. Deixou-a ensinada a gerir ou sozinha ou em companhia dos filhos. (Podia contar o mesmo de Passos Manuel que escreve, diariamente, à sua mulher, que vivia aqui em Alpiarça, na quinta da Torre. As cartas sucedem-se, diariamente, o homem estava no poder – não na Índia, mas em Lisboa – mas aquela confiança na mulher de que ela era capaz… e elas eram tão capazes, que os homens andavam na conquista do império, bem longe, a morrer, a ficar e eles, os filhos, os primos, os sobrinhos e Portugal passou… (À parte: neste caso bem sintomático, há aqui documentos que falam nisso, 1509 e 1586…primeiro a esposa e depois outra senhora, já dum bisneto, aqui estão elas à frente…a tratar de questões judiciais e agrárias… Não é uma mulher que esteja metida dentro do “paço”a fazer renda ou bordar…). ou seja: a nossa História é muito mais moderna do que pensamos. Eu acho que íamos ter um enorme apoio da nossa História e acho que íamos ser cidadãos europeus de cabeça erguida, sem quaisquer problemas (à parte tínhamos era que conhecer os documentos…). Pois… pois!
 
Portanto, este livro tem o interesse também pela história local que foca, pela história regional que é, exactamente, a da região de Santarém e da região do Tejo, nessa altura o Além-Tejo que tem como fronteira o rio Guadiana e, também, como história a nível nacional porque, no fundo, fala nos descobrimentos e falando nos descobrimentos, encontramos Anhaias por tudo quanto eram portos, locais de comércio por toda a Ásia, neste período e num período em que a Ásia para nós é uma ilha…foi uma filha íntima, dá-nos as especiarias com as quais nós não soubemos investir, porque queríamos viver à maneira dos flamengos e, portanto, tudo se foi embora, depois de vivermos durante um período áureo.
 
Queria para terminar cumprimentar a nossa querida autora – desculpe tratá-la assim, se me permite – depois de ter sido aluna, é voltar a descobri-la neste momento. Queria dar-lhe os parabéns porque realmente é um trabalho muito bem feito e não é por estar aqui, não é por estar à frente duma assembleia (raramente vejo uma casa tão cheia para assistir à sessão dum livro como vejo aqui). (À parte: são os amigos…). Mais uma vez estamos a viver o país com muito mais força fora de Lisboa, do que às vezes assistimos a conferências na Gulbenkian, com meia dúzia de pessoas e aqui temos uma casa cheia. Mas dizer-lhe que, realmente, gostei muito do seu trabalho. (À parte: obrigada!). É um trabalho que está muito bem estruturado e tem estes aspectos que me parecem notáveis, digo com toda a franqueza e sinceridade. Digo notáveis porquê: porque consegue ter a sorte de descobrir um espólio referente à Lagoalva, inédito, portanto tem a vantagem de termos documentos inéditos transcritos no livro, mas podia ter-se ficado por aqui. Mas não (porque há muitos que assim fazem: uma pequena introdução e aí vai uma publicação). Mas não! Tem a preocupação de contextualizar estes documentos, interpretando-os, o que é um grande esforço de bibliografia e de encontrar a cultura histórica necessária para o enquadramento dos documentos, em primeiro lugar. Em segundo lugar, porque foca, também, um aspecto que é bem difícil – olhe eu sou incapaz de o fazer – que é dedicar-se, como eixo quase central do seu livro, à genealogia dos Anhaias e é uma genealogia de quatro gerações. Portanto, também não é fácil nem é qualquer um que, para o século XVI, procura e consegue encontrar casamentos, vivências e nascimentos e mortes de muita desta gente. Isto é outro aspecto deste livro que tem o maior interesse, a genealogia da própria família. Depois, ainda tem outro aspecto que me parece muito importante que é transcrever para este livro… enquadra-o tão bem no século XVI, neste século d’ouro da História portuguesa que aproveita e bem nessa contextualização, os grandes escritores, os grandes cronistas do reino de Portugal. Envolve aqui o Fernão Lopes de Castanheda, o Diogo do Couto, o João de Barros, o Garcia de Resende, o Gaspar Correia e o próprio Camões. Quero dizer: todas as grandes figuras do século XVI, a nível do registo da História de Portugal, que vêm, ao fim e ao cabo, completar e viver… o que faz um todo neste livro. Por isso, é mais outro aspecto que quero focar, que muito me agradou. Para terminar, queria dizer que isto é fundamental, não só para si, porque realizou um trabalho, mas é fundamental por aqueles que o apoiaram, não só os mecenas, como a editora, que foi o estímulo à investigação. Estimular à investigação é fundamental! Não é só fundamental, é inesgotável a documentação, no nosso país. Por mais que, qualquer um de nós faça ou dediquemos a nossa vida, continua tudo por fazer (À parte: ah, isso é… é que continua mesmo, tudo por fazer, há sempre mais…). E até o fazermos as coisas duma maneira diferente… Portugal é duma riqueza sem limites, a nível de fontes de investigação. Simplesmente, sabemos as dificuldades que há e, por isso, lhe dou também os parabéns por conseguir ter levado a cabo este seu trabalho. E a terminar o que é que trouxe com isto?
 
Trouxe, na minha óptica, estimular os mais novos, digamos assim, aqueles que tenham capacidade e tendência para se dedicar a estes trabalhos para que o façam, para que acabem por conseguir levar à prática a publicação dum livro e esperamos que tenham, naturalmente, o maior sucesso. Mas para mim em 2007 e hoje, em Março, dois ou três dias depois do 25 de Março, em que se festejaram os cinquenta anos do Tratado de Roma e da União Europeia, ainda mais importante se torna esta data de hoje: porque veio dar à história local – neste caso a Alpiarça – veio dar à região – neste caso é um alargamento que envolve Santarém, que envolve outras áreas por onde andaram os Anhaias e que vem dar, muito em particular à quinta da Lagoalva de Cima, uma história e um berço e podemos ir mais para trás. Os berços não só aqueles nos quais nós nascemos… São todos aqueles que estão por detrás desses outros berços e estes casamentos, percebemos o que está para trás do espaço que habitamos, do espírito do lugar que vivemos… é fundamental para nós sentirmo-nos com identidade e sentirmo-nos com equilíbrio e bem estar, naquilo que os nossos antepassados fizeram: os descobrimentos, criando já a globalização e hoje, como cidadãos, grande parte de nós já a viveram em virtualidade, mas vivendo numa globalização que nós já criámos, não temos que nos espantar… mas é fundamental livros destes para saber, exactamente, onde é que está o nosso berço. Qual é o nosso berço? Eu sabendo donde venho, sabendo onde estou, sabendo quais são as minhas raízes, não tenho qualquer medo da globalização, posso voar porque sei donde vim e para onde é que posso voltar. Agora, se a virtualidade passa a ser global em qualquer cidadão, então, é uma cidadania perdida porque não há globalização que funcione só virtualmente. Ela tem que se apoiar naturalmente, em alguns pilares, pelo menos a nível da estrutura mundial e, por isso, este livro é importante como conhecer a história local e regional é, extremamente, importante para que cada um de nós, como cidadãos, saibamos onde é que estamos. Estar em Alpiarça, ser hoje um dos senhores da Lagoalva e ter uma autora como a Dr.ª Alice Lázaro é garantirmos que não temos que ter medo da globalização. (À parte: eu estou tão contente! … palmas). Obrigado.


Palavras da autora – Alice Lázaro:

O Professor foi duma simpatia! Já disse todas as coisas, leu tão bem o meu livro que eu, agora, não tenho nada para dizer. Agora fico com as pontas e é comigo agora que as pessoas vão começar a adormecer. De qualquer forma, devo dizer alguma coisa, porque não é todos os dias que nós nos encontramos com amigos e com pessoas que querem conhecer aquilo que nós fazemos, no percurso da nossa vida.
 
Devo começar por agradecer, embora já tenham sido ditas certas coisas, mas eu também tenho que lembrar o aniversário da casa. Agradeço imenso à Dr.ª Margarida e ao marido (Dr. Jorge Neves) pelo facto de se terem lembrado e terem feito esta coincidência feliz: nós, finalmente, podemos estar juntos. As oportunidades também, muitas vezes, são muitas, mas não conseguimos sempre as coincidências! Por isso, muitos parabéns e muito obrigada por se terem lembrado de nós. Agradeço à Sr.ª D. Isabel Juliana de Holstein Beck-Campilho o facto dela ter disponibilizado a sua amizade para mim. Foi uma descoberta muito bonita, não só da família em geral, mas pela Sr.ª D. Isabel que fez questão de me conhecer pessoalmente, depois de saber que eu estava a trabalhar nisto e, enfim… vieram à memória muitas coisas, muitas memórias, também e muitos sentimentos, pelo menos da minha parte, creio que dela também e o facto dela estar aqui presente, vindo ter connosco fazer esta festa, dá-me muita alegria e dá-me muita honra. Muito obrigada Sr.ª D. Isabel! (À parte: eu é que tenho que lhe agradecer, tudo quanto foi dito aqui, a Dr.ª Maria Alice foi formidável, que não largou… às vezes não tinha assim muita preparação para estar… para ouvi-la tanto e, realmente, agradeço-lhe muito, agradeço a todos porque foi uma coisa extraordinária… foi uma pequena reunião de família de alpiarcenses e amigos. Eu também fico contente, por saber a senhora feliz e fico muito honrada com isso…). Queria também agradecer e realçar, enfim, o papel da Sr.ª Dr.ª Maria Holstein-Campilho que sem ela… foi ela a nossa ligação – ligação com a família – foi ela que se mostrou, desde logo, disponível quando telefonei a dizer o que estava a fazer, a quem eu, particularmente, chamo Mariazinha, vai-me perdoar por a tratar assim… mas foi sempre uma simpatia e é, porque as pessoas que a conhecem sabem que é, mas de uma grande disponibilidade quando tem tanto para fazer. Enfim… isto era uma aventura. O que é a Lagoalva? O que é que ela anda a fazer? A Lagoalva dos papéis dela…? Juntamente, também o Dr. Manuel de Oliveira que foi outro grande amigo com quem contei e, porque estamos a falar de mecenatos e é tão difícil arranjar alguém que esteja disponível, até para nos ouvir… nos atender, para acreditar em nós e naquilo que nós estamos a fazer. Foi incondicional também o meu querido amigo Dr. Manuel de Oliveira. Agradeço-lhe imenso, imenso… porque estas coisas não têm dinheiro detrás, têm amizade, afecto, confiança, têm muitas coisas de que nós nunca mais nos vamos esquecer. Da família Holstein-Campilho queria referir também os outros filhos da Sr.ª D. Isabel, dos quais alguns estão aqui presentes. Não queria entrar em pormenores… de qualquer forma, sei que posso contar com eles, duma maneira ou doutra: Dr. João Campilho, o Eng.º Manuel Campilho, o Eng.º Miguel Campilho – não conheço o Dr. Pedro Campilho, mas concerteza que também cuidou e não veio por estar ocupado… – muito obrigada a todos.

 

Queria também agradecer ao editor Imagens & Letras, na pessoa do Dr. Fernando Mendes, que acreditou também neste projecto, muito disponível, muito jovem, muito cheio de interesse e comigo… andámos aqui nesta luta, nesta guerra amiga para conseguir pôr de pé o projecto. Quem se mete nestas coisas sabe que é difícil… pronto. Nós não vamos aqui enaltecer as dificuldades, vamos só falar das coisas bonitas e do bom resultado, porque eu fico muito contente com este livro que foi criado sem grandes institutos do lado de trás, mas que acabou por resultar muito bem… (à parte: a capa é bonita, não é? Risos…). Queria também falar duma pessoa que não está aqui presente (não pôde, porque hoje é 4.ª feira, porque está em Lisboa e as pessoas, em geral, consideram quando estão em Lisboa ir a Alpiarça ou Santarém de semana, isto implica uma grande deslocação, não é? algumas pessoas queriam vir, mas de facto, não podiam. Hoje é 4.ª feira, como é que se vai à 4.ª feira a Alpiarça? Risos…é verdade… é verdade… mas também recebi alguns telefonemas muito agradáveis de amigos meus, assim com uma saudade imensa… portuguesa. Tenho imensa pena de não estar presente, mas… é em Alpiarça. Por isso, não vieram, mas eu não duvido de que gostariam de ter estado presentes! Uma dessas pessoas que não conhecem (mas conheço eu muito bem), é a Sr.ª D. Graça Barros Alves, técnica de arquivo do ANTT, uma pessoa extraordinária. O Professor enalteceu o facto de estar aqui documentação inédita transcrita, numa leitura que vai do século XV ao final do século XVI, passando por nuances de letras e de tipos de leitura que só quem conhece paleografia e eu não sou especialista, é que pode entender o quanto foi difícil e o que isto representa. Uma pessoa especializa-se numa letra duma época e enfim… já vai lendo. Agora, quem começa no XV e entra pelo XVI – quem conheça, por exemplo, a letra do tempo de D. João III ou do de D. Sebastião, sabe do que é que eu estou a falar, provavelmente, melhor do que eu porque eu sou uma amadora, em leitura paleográfica. Fi-lo com dedicação pelo trabalho que estava a fazer. Mas se eu não tivesse podido contar com o apoio desta senhora – que fez sempre a leitura, porque, enfim, eu tinha o sentido da responsabilidade por aquilo que estava a fazer – corrigiu-me, levava a transcrição para casa, fez serões, não recebeu nada com isso… devolvia-me os documentos corrigidos, eu voltava a corrigi-los até estarem escorreitos… não foi brincadeira! São 32 documentos originais. Deixo a minha homenagem para ela.
 
Para dar, enfim, o ar da minha graça, porque terei de o fazer e faço-o com muito gosto….Queria dizer o seguinte: sinto-me depois deste trabalho – três anos de investigação – em que a Lagoalva foi o meu ponto de partida (entretanto, alarguei os conhecimentos a outras terras à volta, Vale de Cavalos, Ulme, Chamusca, Alpiarça…portanto já estou um manancial de conhecimentos… risos). Pensei no que ia dizer às pessoas presentes. É que nós tornamo-nos apaixonados do objecto do nosso trabalho, é verdade. E, se não for assim, estamos perdidos… todos nós, temos de ter paixão por aquilo que estamos a fazer, não importa o quê. No meu caso, tornou-se numa obsessão, nos últimos três anos. No fim, sinto-me, como a poetisa luso-brasileira, Cecília Meireles. Há um pequeno verso dela que me lembra, que me ocorre, que é ela dizer, quando acabou o exame da 4.ª classe… chegou a casa contentíssima, eu sinto-me como ela: Mãe…! Mãe! Eu já sei tudo…eu já sei tudo sobre a Lagoalva! (Risos…) já ninguém sabe mais da Lagoalva do que eu! (Risos…). Convém não esquecer que eu estou a falar da 4.ª classe, como a Cecília Meireles! A partir daí… não entremos em relatividades.
 
Continuando, como a Sr.ª D. Isabel disse e eu acho que é…seja a Lagoalva seja outra terra que tenha a ver connosco, a homenagem ultrapassa em muito as pessoas que, neste momento, aqui estão. Neste caso, os proprietários de uma casa agrícola. Podia ser do Cabide, da quinta Nova, da Goucharia, da Alorna… essa é a nossa contemporaneidade, é aquilo que nos pertence, neste momento…mas as coisas estão para além disso. Para quem estuda História, como o Sr. Professor, concerteza, compreenderá e os presentes, as coisas extravasam, ultrapassam o tempo em que se está. Quem anda a estudar História tem a arte de quem anda numa espécie de cursor, que circula dum lado para outro e nos situa fora do nosso próprio tempo. Neste caso, a Lagoalva de que falamos não é a Lagoalva de hoje… que já foi doutros e para nós é, também, uma referência. É um acordar, que é mérito daquele que vai descobrir os documentos, que acorda o passado comum e que nós, muitas vezes, desconhecemos. Claro que não está aqui toda a gente de Alpiarça ou desta região. Não fica toda a gente a saber. Mas quando tomarem conhecimento, seja deste livro seja doutro que diga respeito a alguma coisa da região, pode descobrir que muitos aspectos referidos são de hoje e são do passado e que, naquele passado também era comum aos nossos antepassados e é isso que eu queria relevar.
 
Em conclusão, se nos situássemos a outro nível de gerações, encontraríamos outras pessoas, muitas delas aqui presentes, representadas pelos seus descendentes, numa presença transversal que extravasa o tempo presente. Não sei se me fiz entender com este circuito, mas o que eu quis dizer é que, há várias gerações aqui na nossa lembrança e também na minha. Na minha está de certeza: no dia 3 de Fevereiro de 1875 nasceu na quinta da Lagoalva o meu avô paterno porque os pais dele já lá trabalhavam. Foi registado em Alpiarça, mas nasceu na Lagoalva. Assim como nasceu o meu avô nasceram os irmãos do meu avô, que permaneceram na Lagoalva, outros que foram para Vale de Cavalos, outros para a Chamusca e outros para Alpiarça… dados que basta consultar os registos paroquiais para o comprovar. Sei que este meu avô esteve depois, no dia 4 de Agosto de 1919, a acompanhar a festa de abertura da praça de touros da Chamusca (vejam como a história anda dum lado para o outro…). Lembro-me de ouvir contar na minha casa, quando eu era criança, que o meu avô tinha criado à caldeira, um dos bois – dos toiros – que era o Gigante que morreu – porque nessa altura ainda se matava uns toiros na praça… acho eu… – foi o Gigante um dos que celebrou a inauguração. Esses toiros foram oferecidos pelo senhor duque de Palmela, D. Luís de Borges Coutinho e estiveram ali presentes toureiros muito famosos. Um deles foi o José Casimiro e daqui da região, a família Mascarenhas: D. José de Mascarenhas, D. Carlos de Mascarenhas e D. Alexandre de Mascarenhas… entre outros, um deles era o marquês de Fronteira e, portanto, conde da Torre. Muito famoso foi D. Carlos de Mascarenhas, também… vejam como a História nos aproxima. Vim a ser colega na mesma escola, no mesmo liceu, dum neto de D. Carlos de Mascarenhas, que infelizmente, não está presente, não por ser 4.ª feira, mas pelas obrigações na escola (é o Dr. Pedro de Mascarenhas Pyrrait). Fico feliz pelo meu avô e vejam como depois vou descobrir isto por investigar e ver como a Lagoalva andava aqui ligada. Não queria fazer publicidade aos livros dos outros, mas para os curiosos, fica aqui – abrindo o livro – a propaganda e o cartaz antigo. Achei que gostavam de saber isso e também a D. Isabel. Estamos a celebrar muitas pessoas e eu quis fazer com isto uma homenagem aos meus avós e aos avós doutras pessoas que aqui estejam, eventualmente, que se não estiveram ligados à casa da Lagoalva, pelo menos, os meus estiveram. Havia vantagens, na altura, na casa da Lagoalva que era o facto de as pessoas terem ali casa, terem ali filhos e criarem ali uma geração de gente. Havia uma interligação entre a terra e as pessoas. Homenageio a memória dessas pessoas através desta referência e desta presença.
 
Voltando ao livrinho… eu tinha preparado… mas não vou alongar-me tanto que os mace. Tinha preparado duas ou três ideias, mas o Sr. Professor já tocou em algumas… mas não podemos ir para casa sem ir esmagados por mais estas palavrinhas que eu gostaria de dizer. Tinha sistematizado o que está aqui neste livro – para além do facto de ter já sido dito tudo – estão aqui 32 documentos inéditos, transcritos, que chamam a atenção para toda esta região, através de situações vivenciais que dizem respeito ao dia-a-dia, mas também às pessoas da terra que o Sr. Professor tão bem leu. Sistematizei assim: a Terra (neste caso, a comenda); o Homem, primeiro comendador da família, Pero d’Anhaia e a Obra, tão bem referida aqui. É um homem que recebe uma comenda. Mas que não é apenas um título. Para os que estejam a par disso, sabem que a comenda não era, simplesmente, um título honorífico, como hoje acontece. A comenda era um vínculo que ligava a pessoa a uma situação. Se ele – Anhaia – tomou o hábito da ordem de Santiago, que era a forma dum cavaleiro estar vinculado a uma ideologia – essa ideologia, no caso, era a ordem de Santiago – que tem um ideal de cavalaria subjacente à ideia religiosa representada pela igreja, tal como existia a ordem de Cristo, a ordem de Avis ou de Malta. Portanto, eram outras formas de entrar num percurso vinculativo e que tinha a ver com aquilo que o Sr. Professor falou que era, precisamente, os descobrimentos (na altura). A Lagoalva era terra que pertencia à ordem, não ao Estado, no sentido em que hoje o temos (a ordem militar é trabalho que vai sair, num outro volume, a seguir, onde se mostra como aparece a ordem e o território da ordem). Por conseguinte, estamos sempre dentro dum território que é pertença da ordem militar de Santiago. Sem entrar muito em pormenores, é só para dizer que nós a estamos a apanhar já no século XVI. Comecei por aqui para fazer a efeméride porque quando me apercebi que, entre a documentação que eu tinha ao meu dispor, toda ela inédita, eu optei por apelar ao facto de estar a trabalhar sobre o acontecimento. Apercebi-me que, no ano em que eu estava de 2005, perfazia 500 anos que tinha acontecido a saída da armada da Índia que leva o Pero d’Anhaia que, por coincidência, era o comendador da Lagoalva. Então, optei por começar por aí. No entanto, o território já era da ordem antes de 1505 e mesmo antes de 1484, que é a data em que esta família se fixa aqui.
 
Para não dar uma seca, queria apenas dizer como é que a comenda chegou até mim. Queria satisfazer alguma curiosidade das pessoas que porventura queiram saber como é que se descobre isto…devo dizer que sou daqui e nunca tinha ouvido dizer que ali era terra de Santiago. Mas as ordens andavam por aí. Todos nós sabemos, minimamente, que as ordens estavam sobretudo a sul do território nacional. Elas estão, de uma maneira ou doutra, ligadas a esta terra toda. São várias. Não sabia, particularmente, desta. Então, quando eu cheguei à Torre do Tombo com a disponibilidade que me atribuí a mim mesma de fazer investigação histórica – era um gosto que eu tinha que ainda não tinha podido levar por diante, por falta de disponibilidade de todo o tipo – resolvi ir para a Torre do Tombo, que é onde se encontra toda a nossa História, praticamente. E ela é inesgotável, isto sem favor. Quem vai à Torre do Tombo à procura de documentação, encontra sempre qualquer coisa, mesmo que na altura não vá com muitas pistas muito determinadas. Quem andou por lá sabe isto, perfeitamente. Quando eu lá cheguei – faz de conta que chego lá hoje – não fui à procura da Lagoalva. Ia, no entanto, à procura de informação sobre a região, nomeadamente, sobre Vale de Cavalos, porque enfim, me senti nesse direito… devo dizer que me senti decepcionada, nas primeiras alturas. Isso acontece a alguém que investiga. As coisas aparecem já feitas mas é na história dos outros. Para nós, nós temos que a fazer e se a vamos construir temos de começar por uma ponta… nas pesquisas dos imensos fundos que a Torre do Tombo tem, uma riqueza extraordinária em todos os aspectos (não é, por acaso, que encontramos ali tantos investigadores estrangeiros e não é só sobre a história dos descobrimentos, mas também outras épocas, em que aparece tanta gente, que se defronta com o problema da língua. infelizmente esse é um obstáculo que impede que se abra este conhecimento a meios estrangeiros, porque o investigador tem também de saber português, além de ter de estar bem documentado para chegar a investigar na Torre do Tombo, é também por isso que a nossa História é menosprezada, eventualmente, em primeiro lugar pelos portugueses e depois existe também todo um marketing de quem manda em quê, quem é que chega primeiro com a sua opinião…isto foi uma à parte, as coisas estão muito por fazer, mas não é por isso que deixam de existir.). Deparei-me, a certa altura, com um fundo – os que trabalham na Torre do Tombo saberão o que eu quero dizer – não encontramos um mundo de fichas, alfabeticamente, deixa lá procurar Lagoalva…a organização por fundos é como se acham os grandes arquivos e cada um deles existe por épocas e é quase do exclusivo conhecimento dos especialistas. Eu não sou uma especialista! A certa altura debato-me com um fundo que é o da Colegiada de St.ª Iria – uma das várias de Santarém – mas foi ao acaso. Vejo uma ficha manuscrita, numa letra muito manhosa, que fala de um Pero Danhoyo, comendador da Lagoalva. O nome não me dizia nada. Mas não deixei de pensar que aquilo era a minha Lagoalva… já era minha! Isto é, a Lagoalva lá da minha terra. Começo a ver e era um processo de 1509, numa letrinha do século XVI, que foi obra para decifrar. Devem compreender que não é o mesmo que mandar vir um livro e ler…de modo que levou algum tempo a devassar – com a ajuda da referida senhora, é um facto – e constato que era um processo entre o comendador que já não estava vivo (o Pero d’Anhaia) já aparecia o nome do filho o Diogo que tomou a comenda e a mãe, D. Catarina do Carvalhal, com a colegiada de Santarém.
 
Logo aqui é uma graça saber estes pormenores. Queixamo-nos dos impostos, mas naquela altura o problema também era a fuga aos impostos…era ver quem é que não pagava. É verdade! Outros processos que fui encontrando, falam de traslados – nome técnico – que são pedidos para saber como foi tratado o caso, no tempo, por exemplo, do avô. Isto é recorrente com a colegiada que exige o dízimo que os comendadores não queriam dar, sobre os produtos da terra. Os traslados serviam para ajuntar aos processos de recurso, exactamente como agora: os trâmites judiciais, os argumentos são os mesmos, quem ganha, quem faz recurso, enfim…mas fica-se a saber muito sobre a terra, porque vem ali muitos pormenores, inclusivamente, o nome das pessoas, quem era o feitor, quem era o ovelheiro, quem era o criador disto, quem era o dono do campo… está lá tudo. A partir, daí, então resolvi que valia a pena investigar um pouco mais. Apercebi-me do facto de esta terra estar na região de Alpiarça, mas não era a mesma coisa, que era um território autónomo, para a linguagem e para a situação administrativo-jurídica da altura, embora pertencessem todos a Santarém, falo de paróquias do termo de Santarém – termo de Santarém é a divisão administrativa que se usa, então – situação que é preciso conhecer. Além disso, a Lagoalva pertencia à ordem de Santiago, de quem dependia, noutros aspectos e a entregava aos comendadores que serviam, na carreira d’armas, por exemplo, cavaleiros ou como navegadores. Lá vão pela costa africana, nas caravelas, depois na costa do Índico e chegarão, estes, até onde os achei, no final do século XVI, no extremo oriente, na actual Indonésia, etc. terras de que se houve falar nem que seja por causa do maremoto, infelizmente… a terra de Acém… António d’Anhaia e outros vão até ali, achamos os portugueses e os Anhaias por todo o lado. Deixava aos que tem interesse em ler – concerteza que sim – estas pistas.
 
Chamo a atenção para alguns familiares de Pero d’Anhaia que como se viu, saiu daqui em 1505 e morre em 1506 na costa africana (como o Professor também referiu). A armada segue para a Índia, levando D. Francisco de Almeida, nosso primeiro vice-rei, pormenores que transcrevi dos historiadores e cronistas dos descobrimentos, nomeadamente, João de Barros, Diogo do Couto – que conhece muito bem os Anhaias – há mesmo um membro da família Anhaia que foi criado com ele na casa do infante D. Luís, filho de D. Manuel I, (D. Luís frequentava muito o Ribatejo, tinha casa em Benavente, além de haver o paço de Almeirim). Este Anhaia (João Gomes d’Anhaia) foi pajem de lança de D. Luís e recebia a sua paga aqui na Trava (naquele caso, o paul da Trava), na altura entidade à parte, não integrado em Vale de Cavalos, como hoje, tença que tinha uma base em produto, além da moradia, como fidalgo da casa real, (eram cavaleiros e os animais precisavam de ser alimentados e parece que não, se a gasolina é cara, naquela altura tinha que haver ração para o gado, paga neste sítio). Um outro que era já neto ou bisneto? Neto, de quem encontrei documentação referente a escrituras, tinha aqui uma quinta – a quinta do Sobral – não sei se as pessoas de Alpiarça conseguem hoje fazer a demarcação porque os terrenos estão todos muito englobados e as pessoas vão perdendo essa memória… penso que pertencerá hoje a Vale de Cavalos. Não vim ao local, não sei onde começa ou acaba o Sobral, mas sei que é pertença também da família Holstein-Campilho com o acrescentamento da Lagoalva, propriamente dita, em datas posteriores e que hoje fazem parte da Casa da Lagoalva. Portanto, além da comenda, os elementos da família Anhaia habitavam outros espaços aqui na zona de Alpiarça e Vale de cavalos.
 
Chamava ainda a atenção para episódios que acho interessantes, protagonizados por alguns dos Anhaias que encontrei referidos pelos cronistas. É o caso de um Diogo d’Anhaia Coutinho – nomes que vão sendo acrescentados: Menezes, Silva, Coutinho…conforme os casamentos dos filhos de Pero d’Anhaia – que entra num episódio contado por Diogo do Couto e mais tarde, por Mendes Leal, numa pequena história sobre o cerco de Diu, em 1546 em que esse Diogo d’Anhaia Coutinho é um autêntico aventureiro, é uma figura engraçadíssima. É pobre, um fidalgo pobre, figura picaresca que diverte. Achamo-lo na terceira geração. Salta o muro vem buscar um língua – o intérprete de que os portugueses precisavam – enfim, um episódio de espionagem, depois muito festejado. São homens do tempo de Camões que andou em situações semelhantes… andaram todos por ali.
 
Um outro que eu acho uma figura lindíssima, por isto, é uma paixão que tenho por ele, como apaixonada da História, que é o filho de D. Francisco de Almeida, D. Lourenço de Almeida, um jovem que vai morrer, justamente, na batalha naval de Chaul. Ele, tal como Pero d’Anhaia, ia na mesma armada de 1505. Anhaia fica na costa do Índico e a armada segue para a índia. Assim como D. Francisco de Almeida levava um filho também Pero d’Anhaia levava um filho, que é Francisco d’Anhaia. Francisco segue com o resto da armada para a Índia, o pai fica em Sofala com aqueles que seguiam para o apoiar na construção e defesa da fortaleza – a 1.ª fortaleza do Índico, não devemos esquecer – e na Índia dá-se em 1509 a batalha de Chaul. É uma batalha enorme, sangrenta, terrível, muito bem descrita pelos cronistas e que transcrevi, parte, como podem ler. Ali morreu, heroicamente, D. Lourenço de Almeida. Entre os que o acompanhavam na batalha estava Francisco d’Anhaia – o pai do outro Anhaia, além do próprio, que tem quintas ou terras aqui na região de Alpiarça – que regressou depois para Portugal e volta, novamente, ao oriente em 1526, acabando por vir a falecer aqui e ser sepultado na igreja de Palhais, na Ribeira de Santarém, igreja que já não existe. Não há dúvidas que há aqui muito ir e vir, na construção do império português, muito sangue, muito horror, mas também muita bravura.
 
Ressaltei aqui estas duas figuras da família dos Anhaias a título de exemplo da história dos portugueses no oriente, gente local, de que há tanto para descobrir, em minha opinião. Mostro este esquema, só para terem uma ideia das fortalezas portuguesas das costas ocidental e oriental (Malabar) do Índico (a partir da Iconografia de Luís da Silveira). É que nós sabemos sempre estas coisas…mas quando olhamos de novo, ficamos espantados. E não estão aqui todas… estas vão até Ceilão. É impressionante. E éramos tão poucos! Anhaia teve o mérito de lançar a primeira pedra desta rede. A fortaleza de Sofala já não existe, foi das primeiras a desaparecer, em parte pela acção do mar… e agora, para terminar, gostaria de falar doutra coisa.
 
Às vezes perguntamos, em termos de história local, quais eram as produções da terra? Era uma curiosidade que eu tinha. Já havia vinhas? Havia oliveiras? Árvores de fruto? O que é que afinal, se produzia aqui? Os documentos que chegaram até nós trazem-nos essa informação, precisamente, por causa do pagamento dos dízimos. Verifiquei, assim, que no ano de 1509, se produzia aqui de trigo, na Lagoalva – só na comenda e não em toda a extensão que a casa hoje abrange – 1500 alqueires; centeio 1600 alqueires; cevada 4600 alqueires – cá está o gado – e milho (as pessoas pensam sempre no milho depois da descoberta da América) já tem aqui 700 alqueires, o que significa que a produção estava bem desenvolvida, tínhamos ainda naquele terreno 60 ovelhas de que tinham de pagar também o dízimo, a lã e os queijos, à colegiada. A igreja que superintendia sobre a Lagoalva era a de St.ª Iria e também sobre Alpiarça e no caso de Vale de Cavalos era a de Marvila – lá está, como dizia o Professor: ver para fora… (risos). Não sei se sabem se não, mas o número de pessoas que vivia daqui até à Chamusca, em linha recta, suponhamos, de Alpiarça, abrangendo a tapada da Lagoalva, Vale de Cavalos e Ulme não chegava a 400 pessoas – uma densidade mínima – por isso, o pessoal que vinha para aqui trabalhar nas searas, segundo os documentos, eram os mancebos de Montemor. Quando li, fiquei na dúvida se era Montemor-o-Novo se era Montemor-o-Velho, mas optei por Montemor-o-Velho e vou dizer porquê. Porque é de cima (do norte) que vêm, normalmente, as pessoas para aqui. É que se viessem do Novo – onde já havia poucos – como é que ceifavam no Alentejo? A tradição é esta que chegou quase ao nosso tempo. Encontrei outras profissões do campo, além dos trabalhadores sazonais: o feitor, os lavradores, os pastores (ovelheiros, no caso). Quanto à terra, tinha a da Lagoalva, solar, a quinta do Sobral (que terá pertencido a Alpiarça e agora será Vale de Cavalos ou é vice-versa?). Também umas courelas que são nomeadas no contrato de entrada para o noviciado da menina (Catarina) Anhaia em Almoster, bisneta de Pero d’Anhaia – era assim, muitas meninas fidalgas entravam no convento – o dote em renda duma parcela de terra chamada Ariel (às vezes com dois erres, Arriel, outras vezes parece um eme – Amiel). São espaços curtos que desaparecem na toponímia, não sei se hoje ainda se reconhece, localmente, o sítio. Quanto à quinta ou quintã de 1509 em diante – visto que eles fazem referência de que estão lá na sua quinta, tentei achar que casas haveria na quinta. Diz o texto: …”tem casas no meio das terras (da Lagoalva) da quintã e as casas são de pedra e cal e uma casa grande de celeiro e são todas térreas”. Isto não era sinónimo de pobreza. Era uma situação comum, não ter andares. Com isto se vê que era habitada e as pessoas faziam o percurso entre esta região e a Ribeira de Santarém.
 
Para terminar, finalmente, dizer – isto era para ser o princípio, mas a falar as palavras são como as cerejas – que no dia 3 de Março de 2007, num suplemento do Público, chamado Fugas que às vezes traz coisas sobre as regiões ou para onde ir passear (e muito bem!), tinha uma entrevista ou artigo do acompanhamento que se fez a um Sr. Professor de Coimbra, chamado Walter Rosa, que estuda urbanismo e que estava (pelo menos em Março) a fazer pesquisa na Índia, numa região que se chama Korlai, próximo de Chaul, sobre uma comunidade onde se fala um crioulo do português, que me despertou a curiosidade e fui ler. Peço licença para ler para a assistência, o diálogo entre o professor Walter Rosa e um tal senhor Sidh, resultado de uma decifração que o professor fez: “Por haver morado neste lugar S. Francisco Xavier. Passou ao Norte e fez esta ermida (mostro parte da foto do jornal onde se vê parte da fachada duma capela portuguesa). Dom Gil Eanes sendo capitão desta fortaleza [Chaul]. Para memória e louvor do santo ano de 1640”. É portanto uma celebração do ano da passagem de S. Francisco Xavier naquele local. Descobri, então para minha surpresa, que este D. Gil Eanes [da Costa] é o último personagem do meu livro, referido no Epilogo, onde digo que a filha do último comendador (Pedro Anhaia da Silva, D. Ana Henriques) recebeu uma tença de 1641 já de D. João IV, justamente, por causa de D. Gil Eanes, entretanto falecido, sem dizer onde. E assim, vejam como a História de Portugal está em Alpiarça, na Lagoalva e ali naquela cidade de Chaul. Não os maço mais… obrigada…

(Aplausos)

A Sr.ª Dr.ª Margarida Durão encerrou a sessão convidando os presentes para um beberete com as seguintes palavras:
Não sei em que ano é que a vinha começou a ser plantada na Lagoalva, mas a Dr.ª Alice vai descobrir concerteza… (risos), mas hoje ela existe e a Lagoalva teve a amabilidade de trazer algumas garrafas para nós provarmos. A Dr.ª Alice está disponível para os autógrafos.

Notas

 
A oralidade dos discursos feitos de improviso (excepto o da Sr.ª D. Isabel Holstein-Campilho) justifica o ritmo que não foi possível (nem conveniente) alterar. A transcrição respeita, o mais possível, o que foi dito ipsis verba.
 
Não referi, por lapso de memória, a Sr.ª D. Maria do Carmo Campilho a quem, depois, apresentei desculpas pessoais, pela falha lamentável.
 
“A Dona Ana Henriques 80$000 réis de tença pelos serviços que seu marido D. Gil Eanes da Costa prestou nas armadas em que se embarcou por aventureiro [= voluntário], servindo nelas de capitão de vigias e servir em Lisboa de capitão de infantaria. Aos 11.4.1641” (Livro da portarias do reino…) Nota: é possível que D. Gil Eanes tenha regressado a Portugal, depois de saber da proclamação da restauração da independência e se tenha alistado, morrendo na sequência dalguma escaramuça.

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