Lembra-se do "Charles et Georges"?

Consultei o "velhinho" Dicionário de História de Portugal e não me desiludiu. Como me confessava, certa vez, um amigo remoto, o DHP é uma obra que a gente espreita a ver se tem e tem quase sempre o que se procura. Segui, então, a sua máxima e lá dei de caras com a entrada que faz jus ao título deste artigo e, escorreitamente, lá está: "CHARLES ET GEORGES". Vou transcrever o que diz para os meus curiosos: "Nome dum navio francês que em 1857-58 criou um incidente diplomático grave com larga repercussão no país. Suspeito de se dedicar ao tráfico de escravos, que pretendia transportar de Moçambique para a ilha da Reunião, foi apresado pelos portugueses e o seu capitão condenado, após julgamento. Como a sentença fosse recorrida, o navio veio para Lisboa, aguardando a decisão do pleito, enquanto entre os dois governos interessados se discutia a legitimidade da acção portuguesa. A França, baseada em razões pouco seguras, impugnava o fundamento das nossas diligências, pretendendo que a situação regular do navio perante a lei francesa o ilibava de toda a responsabilidade. O episódio transformou-se rapidamente numa questão de prestígio e o governo francês acabou por ameaçar com a força para nos obrigar à libertação pura e simples do navio e do seu comandante e ainda ao pagamento duma indemnização aos interessados. Naturalmente que todos, em Portugal, sentiram a afronta. Já não existiu, porém, unanimidade quando se tratou de apreciar a maneira como o caso fora orientado pelas autoridades portuguesas, quer no plano judicial, quer no plano diplomático, especialmente no que se referia à atitude de Inglaterra perante o conflito." O historiador remata desta maneira, ipsis verba, o artigo: "Um triste episódio, afinal, integrado no movimento antiescravista, em que o mais fraco foi batido pelo mais forte, com a fácil arrogância característica do 2.º império francês."
 

No jornal "Público" do dia 10 de Novembro de 2007 dava-se cobertura à notícia intitulada "McCann admitem processar Polícia Judiciária". O corpo do assunto remete logo no 1.º parágrafo para a afirmação de que os pais da criança desaparecida no Algarve em Maio passado admitiam "processar a polícia portuguesa por incompetência" segundo opinião expressa pelo porta-voz do casal, Clarence Mitchell, "em declarações ao jornal inglês Daily Mail." Além disso, a mesma fonte revelava que o casal McCann estava a estudar "a possibilidade de pedir uma indemnização de um milhão de libras (1,4 milhões de euros) no caso de arquivamento das investigações sobre o desaparecimento da criança sem que se saiba o que lhe aconteceu". Da óbvia semelhança que este caso apresenta com o barco negreiro francês, abstenho-me de tirar ilações. Somente, seja-me permitido, gostaria de divagar um pouco acerca destas questões que desembocam em incidentes diplomáticos, geralmente com a Inglaterra ou com a França (quem conheça um nadinha de História do século XIX sabe do que estou a falar, todo ele recheadinho de humilhações, pelo menos diplomáticas, do princípio ao fim, que é como quem diz da guerra peninsular ao liberalismo e por aí fora). Logo no início do caso lastimoso do desaparecimento da criança, tenho ideia de ter visto a falar na TV um advogado que muito bem opinava que a lei portuguesa tem no seu código penal que resultaria em culpa dos infractores abandonar uma criança, deixando-a entregue a si própria, presumindo no caso, os próprios pais. Foi coisa que aflorou uma ou duas vezes na boca dalgum causídico mais audaz, mas desapareceu dos ecrãs, sem rasto. É evidente que lançar reptos, de vez em quando, na imprensa ou noutro meio de comunicação qualquer, como o que o jornal relata, visa atingir objectivos que os especialistas conhecem melhor do que eu, embora não escapem ao mais mediano espectador, como é o meu caso. Posto isto, queria apenas acrescentar o seguinte: Portugal contou-se entre as nações europeias que primeiro acabou com o tráfico de escravos, assim como com a pena de morte. Certamente que isto não tem qualquer importância, aos olhos daqueles que hoje defendem, educadamente, os direitos humanos (e das crianças). Trata-se duma pequena nação que os povos ricos se dão ao luxo de subestimar, com a complacência arrogante dos bem pensantes cá da terra, que afirmam que eles nem sabem localizar-nos no mapa. Talvez, por isso, por não contarmos, devíamos ir pensando que os indícios da notícia do tal "Daily Mail" já apontam na direcção que as coisas tomarão, não para o futuro, mas para o passado. Com amigos como os de Inglaterra - como diz o outro - nem precisamos de inimigos.

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