Apresentação do livro D. Afonso Henriques de Bragança

D. Afonso Henriques de Bragança

 

(o infante foi sempre uma reserva do país)

 

Da autoria de Agostinho Inácio Bucha.

 

  • É de sublinhar o gosto demonstrado pelo autor no intuito de dar a conhecer e tornar-se divulgador dos episódios, ainda que de carácter privado, da História de Portugal.
     
  • Os historiadores de cujos livros é subsidiário ficam-lhe devedores da cortesia do autor em contribuir para a divulgação dos seus trabalhos, gerados ou produzidas noutras vertentes, seja teses académicas ou obras de carácter mais erudito e, portanto, fechadas ao alcance do grande público.

Apresentação da obra:

Eu diria que estamos perante um livro de memórias ou de um repositório de lembranças e não de um livro com pretensões académicas. Disso se ocuparam os historiadores e hão-de continuar a ocupar-se. Não tanto em função do biografado – personagem central destas recordações – o infante D. Afonso de Bragança e duque do Porto, mas também por causa dele.

Recordações amargas, sem dúvida. Também estas vão para além da figura do filho-segundo do rei D. Luís e da rainha D. Maria Pia de Sabóia, porque não é possível separá-lo do contexto em que nasceu, cresceu e viveu.

Perpassa através desta recolha informativa a infelicidade da família real num todo e da inteira nação, naquele derradeiro período da monarquia portuguesa. Uma e outra apresentam-se desnorteadas sob a pressão constante e implacável dos acontecimentos que, sendo, relativos e inseparáveis da realidade nacional, não podem nem devem ser desconectados das mudanças de rumo da política europeia, num eco tardio, mas contínuo da revolução francesa sobre cujos postulados, mormente a liberdade e a igualdade, assenta ou procuram assentar os alicerces da nova sociedade, que se pretendia a luz de um novo mundo e de um homem novo, preconizado pelo racionalismo iluminista.

As famílias reais europeias sobrevivem ou quererão resistir à custa de cedências a um mundo que, por nascimento e criação, já não era nem podia ser o seu.

No século XIX (e daí em diante) a nobreza gera príncipes que nascem já num sistema questionado e abertamente combatido desde a grande eclosão de 1789 e mesmo aqueles que, apesar de geração aristocrática, se adiantaram na aliança política ou até social (talvez sincera) com os que não o eram, soçobraram, de que é exemplo a descendência de D. Pedro IV, num ajuste de contas tardio com os regimes republicanos, tanto no Brasil de 1889, como no Portugal de 1908-10.

E o mesmo se deu com a família do unificador de Itália, Vitor Emanuel I, como é o caso da infeliz D. Maria Pia. Não menos infeliz foi a rainha D. Amélia, membro de um doa antigos ramos reinantes de França – Casa de Orléans – cujas últimas esperanças foram demolidas com a implantação da república francesa, depois de o ter sido pelo imperialismo bonapartista.

O infante D. Afonso é, neste ciclo de decadência monárquica, apenas um dos exemplos de vida por cumprir nem sequer adiada, (tal como foi a de D. Manuel II, apesar de tudo), mas, de facto, por cumprir.


A vida do duque do Porto não se realizaria, enquanto infante nascido com o estigma dos filhos-segundos nem o será enquanto indivíduo. Jamais se realizará também enquanto marido ou pai. E nem sequer as suas naturais aptidões – para que era realmente dotado – lhe serão viáveis: o desporto (equestre ou outro), com que antecipa a modernidade do desporto automóvel, máquina de que era confesso adepto e foi introdutor em Portugal, símbolo que aspira e admira no protagonismo político de Fontes Pereira de Melo.

De modo que este livro é mais do que uma biografia: é um livro de saudades! Saudades do futuro que se lamenta, por ter ficado aquém dos desígnios previstos e ambicionados na vida desta figura, emblematicamente retratada no abandono em que veio a morrer e, ao mesmo tempo, no orgulho aristocrático do seu perfil, de antes morrer à míngua do que ceder dos seus hipotéticos direitos, na segura dignidade que interiorizou e assumiu por nascimento.

As cartas que o autor da biografia transcreve para ilustrar passagens desta estranha caminhada são disto também testemunho, das quais uma, pelo menos, pode ser vista como um ajuste de contas com a própria vida que D. Afonso previa
havia de acabar dolorosamente (pp. 193-195 datada de Turim de 13.12.1911).

Mas ao contrário da imagem que se lhe colou e principiou a correr desde a sua infância (de não gostar de estudar e preferir actividades recreativas) o infante revela-se uma pessoa hábil, embora tímida, talvez não um bom governante, isto é, um rei, mas um homem de capacidades, se a vida e a situação se tivessem mostrado outras.

É sempre um Bragança e tem orgulho nisso, mostrando-o a casa passo, nas cartas. E, por isso, não podemos deixar de indagar: quem lhe terá ministrado este apego? A educação? O convívio? O pai? A família? Os mestres? Até que ponto era o infante sabedor da tradição e do verdadeiro papel da sua linhagem na senda da História do reino?

Enquanto duques, a cada de Bragança legou à posteridade a ideia de gente inclinada à cultura, tradição que remonta aos períodos áureos da nossa história comum e em todo o século XVII, quando o alheamento da acção governativa permitia àquele ramo da primeira nobreza afirmar-se (aspecto sobretudo marcante nos homens), como veículo e agente de erudição.

À lembrança ocorre logo o malogrado príncipe D. Teodósio, primogénito de D. João IV. Mas também este, amante de música e compositor, além do gosto dos livros e das humanidades, situação comum a outros membros da dinastia reinante, de que o próprio rei D. Carlos e ainda o último rei de Portugal, D. Manuel II, são dignos representantes.

Sem os antolhos da política, teria sido outra a vida deste D. Afonso Henriques, nascido num tempo desajustado em que nem a vida familiar lhe foi propícia ao descanso intimista daquele tipo de ocupações. Cedo intuiu as divergências entre os pais e não conseguiu subtrair-se nem afirmar-se nos seus direitos enquanto indivíduo. Nisto se revela os afectos e a bondade de coração que o dominam, mostrando-se sempre pronto a estabelecer pontes, no meio de correntes adversas, as quais jamais poderiam ser aplacadas.

Estava o infante D. Afonso condenado à mediocridade, paradoxalmente, a que mais lícita se oferecia aos olhos da sociedade preconceituosa e dissimulada do século romântico, que era a lascívia que ia dos bordéis às casas de carácter privado, das amantes de luxo, época de todas as ilicitudes lícitas, contrárias, quem sabe, à natureza da sua consciência.

De tal maneira isto é verdade que, mais tarde, reconhecerá, (p. 195) por letra do seu punho e sem ser constrangido de nenhuma maneira, ter vergonha das coisas do passado, quer dizer, dos encontros fúteis, condenados à partida, porque de antemão sabia que jamais os poderia assumir dignamente, ainda que e se acaso quisesse.

E desta vivência consentida que se alimenta a má-língua dos jornais e o anedotário popular, enraizados em desígnios pouco claros, frutos da hibridez sórdida das boas e más intenções, desnorteadora e desvinculativa dos propósitos da moral e da ética laicas – essência das revoluções que varreram os últimos dois séculos da história ocidental – com redundante perda dos valores autoproclamados e aniquilação da sã moral cristã.

Quando comecei a leitura do livro que o nosso autor nos propõe, fui levada a colher algumas notas ao sabor das páginas, de modo a poder fixar e chamar a atenção dos que me escutam para o que me parecia ser mais relevante na construção da figura do infante D. Afonso de Bragança.

Mas, pouco a pouco, confesso que me fui desprendendo da obrigação das anotações e acabei por ser apanhada na rede dos meus pensamentos, que ia arquitectando e da qual não consegui escapar, à medida que ia formulando a minha própria tese.

E penso que isso é revelador do interesse que suscitou em mim, enquanto leitora, a matéria que se oferece, no traçado desta figura, que me atrevo a comparar a uma nuvem primaveril, anunciadora de chuva refrescante, mas que os ventos incertos impedem. Tal é a força da imagem que se me representa a fragilidade do infante D. Afonso.

Apesar do abandono as notas pela opção de um texto mais compacto, é com a intenção de apelar à leitura para a bibliografia sugerida pelo autor, que patenteia não só o gosto e a sua vocação pelos temas de cariz histórico, onde campeia os que tratam da odisseia do povo português, que bem demonstra no autor o gosto pelas questões da nossa identidade colectiva.

Neste sentido, é muito de realçar e de louvar como principiámos por dizer, o contributo que aporta com a sua escrita, no intento de dar a conhecer aspectos que, sendo da vida privada nem por isso deixam de ser da vida pública, dado o estatuto da personagem retratada.

É, como fica claro, uma figura entre as muitas que marcaram a 2.ª metade do século XIX e ao centrar nele a narrativa acaba por tornar acessível ao leitor aquilo que costuma ser do domínio académico, de que é prova a extensa bibliografia a que recorreu.

Com este contributo, não podemos fugir à comparação com o nosso tempo, quando, a partir dos gostos e atitudes públicas daquele príncipe, nos acodem à mente figuras marcantes da contemporaneidade, muitas delas da estirpe do infante D. Afonso de Bragança e também elas condenadas pelas particularidades da sua vida privada, quando são capas de que os media se servem sem pudor hoje, mais agressivos do que então, não obstante a reconhecida virulência dos jornais daquele tempo. 

É interessante notar que não havendo consultores de imagem – pelo menos nos termos que modernamente se conhecem – o infante D. Afonso (talvez no esteio da rainha sua mãe) tenha tentado canalizar para a sua pessoa interesses de fait-divers com o objectivo de atrair uma escrita cor-de-rosa, mais desanuviadora e estrangeirada, nos gostos e nos hábitos, que a burguesia tinha feito triunfar nas capitais europeias.

É exemplo disto a aproximação descontraída do infante, enquanto membro da Casa Real (filho e irmão de rei), na prática de um quotidiano de lazer que partilhava e não escondia dos olhares populares. Antes, abertamente e numa clara intenção de proximidade, como de resto o livro recorda em certas passagens. Era e parece ter conseguido ser igual a si mesmo: ao mesmo tempo criativo e preguiçoso, sociável e curioso, defensor dos vínculos familiares mais estreitos e conviva afável, amigo dos seus amigos.

Mostrou-se incapaz (e não o esconde) de influenciar o rumo dos acontecimentos e nem o vórtice dos mesmos lho permitia, ainda que o tenha intentado, mas demonstra não ter ficado alheio à complexidade dos problemas que ditariam o fim anunciado da monarquia e o desmantelamento da Casa Real, que nunca se refez das divisões que vinham da ruptura ideológica que opôs liberais e miguelistas.

Ao mesmo tempo, talvez, por influência da mãe, D. Afonso mostra-se afecto e defensor do sistema liberal, o mesmo que – paradoxalmente – cavou a ruína da própria monarquia.

D. Afonso percebeu e di-lo sem subterfúgios a traição da Inglaterra que manobrara política e diplomaticamente em prol dos seus interesses em detrimento dos de Portugal, ou seja:quanto pior para Portugal, melhor para a Grã-Bretanha, em termos imperialistas, como se viu e ele aponta.

Sentiu a injustiça das multidões – sempre prontas a culpar e a absolver os seus carrascos – ao sabor das correntes de opinião, numa clara e continuada ilustração do “pão e circo” ou prosaicamente “carradas de pão, para onde pendem é que vão”. Deste oscilar permanente, é que se alimenta a ganância dos poderes instituídos, que os usam a seu bel-prazer.

É também evidente a lucidez do infante, quando aponta para uma realidade indesmentível (pp. 175 e segts.): A situação que se vivia (década de 80) tinha raízes antigas e profundas cujos braços medravam desde a insanável divisão instaurada na guerra civil, entre liberais e absolutistas. Diz muito bem que foi “a força das armas quem decidiu a favor dos liberais” (p. 175), embora não deixe de pender a seu favor.

Aponta para a divisão nas fileiras dos ganhadores (Loulé e Saldanha) e a relevância dos interesses pessoais que, desde a instauração do constitucionalismo, triunfaram à custa dos interesses nacionais, leia-se, as bandeiras partidárias contra a bandeira nacional.

É também precoce no apontar o dedo ao ideário republicano que tendo instaurado um regime antimonárquico no Brasil com a deposição de D. Pedro II, não trouxera nenhuma melhoria visível à condição geral nem do país nem do povo brasileiro (p. 179; p. 186). Esta opinião repeti-la-á depois e a propósito do 5 de Outubro de 1910 (p. 187).

Sabe reconhecer o papel de grandes governantes e estadistas como Fontes Pereira de Melo a quem apelida de “professor político” do rei D. Luís. E também Ressano Garcia, em ambos reconhecendo o carácter inovador e progressista da obra, realizada a favor da Nação (p. 185).

Sabe apontar o dedo à ferida causada pelos oportunistas do regime, quando fala do conde de Burnay (p. 191), apesar do que, não deixará de reconhecer que a causa imediata da queda da monarquia tinha sido fomentada mais pelos próprios monárquicos do que pelos republicanos (acerto de contas, p. 193-195).

A vida do infante D. Afonso finda como a de todos os exilados portugueses, alinhando com eles no estigma luso: saudades da terra e de tudo o mais, desde a paisagem, ao sol e à comida. Para ele, a Itália, sobretudo Nápoles, nos bons dias, é rever Cascais e, mais ainda, a infância perdida, quando acreditava que poderia ser feliz, anseio e direito de qualquer um, de nós. 

Testemunha silenciosa daquela angústia só o Ponta da Unha, que via as lágrimas de tristeza que deslizavam pelo rosto daquele infante que ele respeitava mais pelo sofrimento, enquanto amigo, do que pela qualidade de ser seu servidor.

Com este livro, lançam-se as bases para a escrita de outro, centrado na peregrinação interior, não do príncipe, mas do homem e da sua circunstância. 

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